#79 Fuck

Demorou talvez uns seis meses pra eu esbarrar a vizinha do 7. Demorou, na verdade, pra eu perceber que tinha alguém morando no 7. Tão quietinha, Miss Diana chegou um dia com uma gaiolinha coberta enquanto eu fuçava na caixa do correio pra pegar as contas que o Seu Jonas recebia pra gente. Ela percebeu meu olhar de curiosidade pro volume embaixo do paninho branco na mão dela, e ao invés de me responder com a porta na cara, como estamos mais acostumados por aqui, ela disse, com um certo enrolar nos Rs, que se eu me incomodasse, porr favorr, poderia interfonar e avisarr, ela faria alguma coisa, é que ela tinha pego o papagaio, mas achava que ele ia ficar quietinho, ele não falava muito. Naquele dia batemos um papo meio corrido de corredor de prédio, mais por conta de minha inquietação social do que por parte de Diana. Na verdade ela era um doce. Descobri rapidinho que ela veio da Inglaterra estudar biologia, que ela nunca tinha combinado muito bem com o cinza de lá, gostava mais era das cores do Brasil, e acabou ficando. Trabalhava com animais marinhos, mas quando achou o papagaio todo machucado e com medo, escondido nas portas dos fundos do laboratório, se apaixonou por ele. Acabaram deixando ela ficar com o bicho, tinha até um certificado. Não entendo muito de animais selvagens, mas acho que isso não é uma coisa comum entre donos de papagaios. Ele só não falava, ela disse que era porque ele tinha fraturado alguma coisa, mas que ficaria bem.
Da senhorita Diana mesmo eu acabei descobrindo mais depois, através da porta e da janela. Eu sei que soa um pouco perturbador, mas juro que não é nada disso. Eu só não conseguia me conter. Todo dia ela saía às 8h da manhã pra ir pro Centro de Biologia deixando um rastro de cheiro de protetor solar no corredor, dizia o bom dia mais educado que o Seu Jonas ouvia, e nunca corrigia quando ele a chamava pela versão brasileira do nome (já eu sempre pensava, é “Daiena” que se diz, seu Jonas). Chegava às 17:45, às vezes mais tarde, às vezes com sacolas de mercado, geralmente descabelada, geralmente sorrindo, “boa noite, Mr. Jonas” e o porteiro tentava controlar o risinho encabulado que sempre surgia quando ela o chamava de mister e fingia não notar, e “hey, sweetheart” pro papagaio, enquanto trancava a porta.
Na minha cabeça eu a chamava de Princesa e fingia que era por ironia.
Um dia Diana apareceu com um moço. Eu os vi chegando enquanto lavava a louça, não que eu estivesse esperando. Riam enquanto ela se atrapalhava com os equipamentos de mergulho que estava carregando e ele não conseguia tirar os olhos dela. Acabamos sendo apresentados na terceira vez em que eles saíram juntos do apartamento de manhã e eu arrastava o lixo pra fora. Diego, pesquisava qualquer coisa sobre algas que eu não dei a mínima, me cumprimentou com um “e aí”. Ele não disfarçava que era do Rio mesmo, alto, queimado de sol e jeito malandro contrastando com ela quando iam abraçados tomar café na padaria sábado de manhã.

Não demorou muito pra que Diego chegasse um dia com duas malas e uma prancha de surf no número 7. Passou a entrar no apartamento com a própria chave, mandando um “qualé, papagaio” enquanto raspava as havaianas no tapete.
Também não demorou muito pra que ele chegasse um dia com uma moça que definitivamente não era Diana, mas poderia muito bem ser sua irmã, e a levou pra dentro de casa com a mão em suas costas, nem ligando pro pássaro. Fofocas à parte, longe de mim, claro, mas passei a achar que talvez o cara viesse de uma família bem grande, talvez grande o suficiente pra que nem a namorada conhecesse todas as cunhadas.

Diana saía e voltava com verduras. Diego saía e voltava com alguma bunduda diferente. O papagaio ficava, e dele não saía um piu. Eu me perguntava o que porteiro pensava cada vez que tinha uma visita nova no apartamento do lado, imagino que o mesmo que eu.

O final cliché e esperado aconteceu um dia, claro.
Quando Diana passou dando seu habitual “boa noite, Mr. Jonas” ele respondeu apenas um “boa noite, querida” apreensivo, e assim que ela entrou no apartamento, no meio do cumprimento, o prédio inteiro descobriu que alguém morava no número 7. Até Seu Jonas entendeu o que significava quando, da porta ainda aberta, ressoou a voz de princesa, alguns tons mais grave.

“Fuck!”

A boa notícia era que o pássaro não era mudo coisa nenhuma, aparentemente só faltava um pouco de motivação. Ninguém comentou nada nem nos corredores, nem na porta do prédio, mas eu ouvia ainda dentro da minha cabeça o eco do flagra, e agora o papagaio que tinha aprendido a falar e parecia se deliciar com sua nova habilidade.
Ouvi ele gritando quando Diego saiu com as malas e a prancha, sem chave. Fuck!
Mr. Jonas e eu ouvimos ele por cinco dias seguidos, no lugar do “bom dia”. Fuck! No corredor, nada de cheiro de protetor solar, nem risadinhas. Durante a tarde, apenas o ruído constrangedor da vassoura da moça da limpeza e o papagaio que ainda gritava.
Lembrei do que ela me disse no dia em que ele chegou, mas não tive coragem de interfonar. Não era o papagaio que incomodava.
Nunca soube muito bem lidar com essas situações, oferecer um café e falar sobre o assunto, por exemplo, não me parece um jeito inteligente de curar mágoas. Tudo o que eu conhecia sobre a vizinha parecia proibido, e como dizer que olha, desculpa, mas eu sei tudo sobre você e sua vida porque, bem, porque a janela da minha cozinha tem vista direta pra sua porta e porque às vezes eu desligo a televisão quando você está chegando em casa? Sou mais do tipo que finge que não sabe de nada.

Um dia Diana saiu às 8h, com os equipamentos de mergulho e me permiti acreditar que as coisas estavam melhorando. O cheiro no corredor me consolou, a vida voltaria ao normal. Até sorriu pro porteiro. Quando ela voltou, abriu a porta e cumprimentou “hey, sweetheart”, e o bicho respondeu “Fuck!”.

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#69 Annoyance

É claro que eles estão atrás de você, cara, você acha que ninguém percebeu o que você fez? Sabe, você é meu amigo de verdade, então eu me sinto na obrigação de te dar um toque, a última coisa que eu quero é o seu mal. Estamos no século 21, ninguém mais atura esse tipo de coisa. Não interessa muito o que você pensa, mas daí a demonstrar é outra coisa, você podia muito bem ter aproveitado a privacidade da sua mente, mas não, é óbvio que você tinha que abrir a boca, dar a sua opinião. Eu realmente não tenho como te defender, cara. Esse negócio de reclamar é tão 2017, só faltou fazer textão. Eu já te falei, as pessoas vão começar a se afastar de você, ninguém está interessado nas suas reclamações. Qualé? Vai postar uma foto bonita, vai se divertir, olha o tanto de balada, de mulher bonita querendo um pouco de atenção. Você não vai conseguir nada com essa cara de tédio. Esse seu inconformismo, sabe, é comprovado que foi assim que surgiram todos os problemas do mundo. Se as pessoas simplesmente aceitassem as coisas e aproveitassem a vida o planeta seria um lugar muito mais agradável. Nada de brigas, nada de guerras. É de gente como você que vêm as piores ideias. Ninguém está aqui pra te aturar, então de que importa? Tanto faz se sua mulher quer dar pro seu melhor amigo, de que te importa se seu filho tirou nota baixa na escola, isso não é problema de ninguém, nem mesmo seu, então relaxa. Quer saber, eu concordo com eles, você só está tentando instaurar o caos com esse seu jeito, e se eles vierem te buscar, eu vou ter que te entregar. Não posso perder meu tempo tentando ajudar um sujeito que só pensa em problemas, eu tenho mais o que fazer, mas se você quer uma dica, de coração, cara, quando eles vierem pra te levar, vê se agradece. E manda umas selfies também pra gente saber que você tá bem.

#18 Under

De todas as coisas que eu tenho pra escrever, eu fui começar bem por você, quem imaginaria? É irônico porque eu desejei que você fosse embora, e continuo desejando mesmo depois de você ter ido.

Não quero me estender, você não vai ser a minha obra-prima. Não é por falta de inspiração ou de assunto, mas é que eu preciso soltar as correntes para poder voar. Não vou me desdobrar em flores pra fazer soar romântico o que você destruiu em mim. Então eu proseei a poesia, eu não procurei palavras no dicionário. Não se engane com o meu tom, eu sou ainda tão otimista, sabe? (Não, você não sabe. Você não sabe nada sobre mim).

Mas é que o problema não sou eu, é você. Afinal, o que não tem sido você? Quando eu travo, quando eu ando na rua procurando onde me esconder caso precise, quando eu abro mão do meu corpo pelo prazer alheio, quando eu olho no espelho e percebo que não gosto de quem me olha de volta, quando eu me calo, quando eu finjo. Ainda é você. Quando eu tenho raiva de mim por ter raiva de você. É você. Quando eu conto meus defeitos, e pra que? A perfeição nunca foi exigência minha, foi sua.

Eu aceitei começar por você, porque eu ainda preciso terminar com você todos os dias. Eu preciso terminar com você todas as vezes que eu conheço alguém, todas as vezes que um cara me toca.

Eu ainda preciso tirar você de cima de mim, onde você sempre preferiu ficar, tirando as raras exceções em você quis mudar um pouco as coisas.Eu preciso que você saia de mim e eu preciso que você saia da minha cama.

Não é em cima delas que os monstros devem ficar.

breaking news

Existe uma caixinha no meu guarda-roupa com uma quase-bolinha de borracha vermelha, dois buraquinhos e um cordão de silicone com as duas pontas amarradas em cada extremidade da bolinha. Essa caixinha está dentro de outra caixinha, isso não interessa muito porque as duas caixinhas são transparentes e não é exatamente um segredo que eu guardo bem escondido, mas talvez eu devesse. Nos dias que eu acordo desanimada e confusa eu lembro de usar a máscara. Ninguém nunca vê, mas eu passo a cordinha pelo pescoço e encaixo a bolinha no nariz, e ela acorda. Ela muda meu rosto e faz os olhos brilharem, assim, instantaneamente. Eu me olho no espelho e só vejo ela, enorme, nem parece que cabe na palma da mão. Eu rio, mesmo que rir não faça sentido. Às vezes eu rio da risada e o riso fica leve, às vezes eu preciso fazer careta, às vezes dá vontade de chorar porque a máscara pesa. A menor máscara do mundo. A mais pesada máscara do mundo. Ser palhaça é difícil, não sei se dou conta. Ser bobo não é pra qualquer um.

Depois dela é claro que veio o apito – que não é apito. E depois o cavaquinho – que não é cavaquinho. E eu descobri que eu sou assim mesmo, gosto das coisas que não são o que parecem ser, gosto de enganar os outros e falar ‘não, esse é diferente’. Tenho um leve prazer malvado em ver o comum fazendo a gente bater com a cara no muro e obrigando a reaprender e desaprender, esses momentos são pura poesia. Não é com um só tijolo que se constrói uma torre, e não é soprando que se toca um kazoo. Já o cavaquinho que não é cavaquinho, é ukulele (a tônica você coloca onde quiser, não importa muito) me levou a conhecer gente que eu nunca teria conhecido, pisado num auditório que eu nunca teria pisado, participado de uma coisa que eu nunca teria participado e visto uma árvore que dá garrafas que eu nunca teria visto se não fosse por ele. Foi assim que eu, que nunca consegui aprender a tocar instrumento nenhum, me vi dentro de uma orquestra. Vê como tudo é possível?

Como eu jurava de pé junto que ia voltar pra faculdade, eu não quis mais, e como ou a gente aceita o sofrimento ou aceita a tranquilidade, eu resolvi fazer as pazes com as minha decisões. A faculdade e eu hoje somos ex namorados que são muito bons amigos se ficar cada um no seu canto, vivendo sua vida. Ficou acordado entre a gente que eu fiz o melhor que poderia fazer, caso contrário teria feito melhor, e que assim vai ser enquanto eu fizer alguma coisa, mas que faculdade, paixão e trabalho não têm, em nível algum, em situação alguma, relação obrigatória. Obviamente, depois disso, eu voltei pra faculdade, mas só por 10 dias (como eu disse, não foi um término traumático, ainda somos amigos tecnicamente). Viver sua paixão é uma delicia, principalmente enquanto ela não vira obrigação. Flertamos um pouco, mas terminamos antes de descobrirmos os nossos defeitos, é assim que amores de verão sempre dão certo.

Pra não dizer que só falei de mim, a política anda uma porcaria, mas isso não é bem novidade. Já que pintaram os muros todos da cidade de cinza, eu pintei o meu com tinta branca, e ainda vou preparar as intervenções artísticas pra representar o meu descontentamento. Cidade feia, quarto bonito, estou em um íntimo manifesto, até subi na mesa pra demonstrar minha rebeldia. Ops, já voltei a falar de mim.

Eu descobri que gosto do mar. A minha cor atualmente é o amarelo. Eu parei de tomar café. Ando com saudade da minha irmã.

Ando empolgada com filmes e séries e livros e músicas. Me apaixonei tanto por Please Like Me que assisti tudo duas vezes em menos de dois meses. Abracei o Tibério Azul, risquei alguns itens da lista. O outono chegou e a vida sempre faz mais sentido no outono.

Acho que era isso.

pop!

Eu sou aquele momento que você fala pros colegas no ultimo dia de aula “hein, vamos marcar de se encontrar, viu!” e vamos, vamos sim, mas a gente sabe que não. Eu sou aquele incomodo de quando te chamam pra ir lá ver aquele filme que você até está super afim de ver, mas que ai, o cinema tá tão longe, e tão caro, e depois eu vou, mas antes disso o filme vai sair de cartaz, você sabe.

Eu sou aquela falta de ar quando a estante está cheia de livros pra ler, e os prazos pra entrega dos trabalhos está chegando, e você recebe a mensagem de “chego em 10 minutos” mas você nem foi tomar banho ainda. Eu sou a preguiça do convite pra evento, e das notificações de lembrete, que pulam na tela dizendo que você ainda não confirmou a sua presença e os seus amigos querem saber, eles precisam saber se você vai, peloamordedeus, decide e avisa os seus amigos se você vai na porcaria do evento de uma vez por todas?

Eu sou aquela coceira que surge no meio da sola do pé logo que você se deita e lembra que não fez metade das coisas que colocou na agenda que ia fazer, e eu vou me espalhando por entre os dedos, e não importa o quando você esfregue um pé no outro, ou coce na pontinha do estrado da cama, eu não vou embora. Pelo contrário. Porque ir embora também é o tipo de coisa que eu não faço.

Eu sou 3 meses de textos não escritos, mas eu também sou uma vontade, Ah!, uma vontade tão grande de escrever, e de sair, e confirmar presenças e honrar confirmações de presenças, e pagar pelo ingresso, e marcar o encontro com a galera. E de aprender malabarismo, e fazer o curso de sobrevivência na selva, e desenhar, e bordar, e escrever, senhor, eu preciso escrever!

Eu sou uma grande criatura construída de vontade, e sobrevivo de pequenas momentos de atitude.

Lado esquerdo

Se você mora em São Paulo deve saber que existe um problema muito sério em ficar parado no lado esquerdo de uma escada rolante. Se você não sabe, você é um problema muito sério.

As necessidades fisiológicas básicas de um paulistano são mais complexas do que a de um cidadão comum. Além da fome, sono, o pipizinho urgente, etc, o paulistano tem a necessidade de ter pressa. Ele começa a sentir um agonia dentro do peito que escorre pra baixo, apertado as coxas, repuxando os joelhos e por fim causando formigamento em toda a extensão da sola dos pés. E se a pressa do paulistano não é saciada rapidamente ele começa a apresentar os sintomas, começando por um resmungo baixo e quase imperceptível, mas que exala uma onda contagiante. Em seguida vem a cara fechada, acompanhada de bufadas congestionadas de mau humor. Nesse nível, a pressa já pode ter sido passada para qualquer outro paulistano que esteja numa distância equivalente a um vagão de metrô. A pressa em si não é problemática, mas por ser contagiosa e por ter sintomas tão fortes e irritantes, é sempre preciso evitá-la em São Paulo. É por isso que é terminantemente proibido ficar parado no lado esquerdo da escada rolante, ferramenta mais amada e utilizada por quem tem até o dobro de pressa de uma pessoa normal, ou seja, o paulistano. Ficar parado no lado esquerdo da escada rolante pode ser o gatilho para a disseminação de pressa à nível municipal por uma simples corrente de vibrações. Se um paulistano está de mau humor às 7h, pode ter certeza que alguém está parado no lado esquerdo de alguma escada rolante – inclusive, dependendo do nível de mau humor é possível dizer em qual estação de metro essa pessoa resolveu se empacar, com um calculo básico que se assemelha aos cálculos sismológicos.

Quando o paulistano está numa escada rolante e percebe que alguém (provavelmente um não-paulistano) pretende parar no lado esquerdo, ele se acomete da pressa psicológica e súbita, sendo instintivamente levado a subir até a altura da pessoa e pedindo licença para passar. É o corpo do paulistano dizendo “por favor, não seja uma pessoa inconveniente e indiferente à pressa alheia” e torcendo pra pessoa errada se tocar e discretamente ir para o seu lugar de direito (que podem ser dois: ao lado ou pra cima). Dias desses eu tava com a pressa saciada e por isso parei na escada rolante – do lado direito, claro! – deixando com que ela fizesse meu trabalho por mim, no momento em que um senhor comete o crime de parar do lado esquerdo. Eu por estar numa posição desfavorável, nada tinha a fazer a não ser esperar pelo paulistano que reagiria àquela imoralidade, até que percebo no semblante do senhor (que provavelmente não era um paulistano) um irônico e indiscreto sorriso, que gritava a todos os paulistanos presentes naquela escada que eles que se danassem, afinal a pressa de ninguém é mais forte ou mais importante que a tranquilidade de outra pessoa.

Conclui-se que aquele senhor, na verdade, não fazia parte do grupo não-paulistano, mas de um grupo ainda mais distinto ao paulistano que sofre de pressa.

Aquele senhor era um paulistano zueiro.

Um toque do além

Quem viveu a infância/adolescência na primeira década desse milênio muito provavelmente teve um grande contato com correntes. Elas eram o meme da época, se você não tomasse cuidado poderia ser atingido por uma corrente a qualquer momento e ser moralmente obrigado a executar alguma tarefa, que variava desde a repassar um email para todas as 15 pessoas da sua lista de contatos do hotmail senão a Samanta te faria uma visita, até reescrever 20 vezes o mesmo bilhete e entregar pra toda a sua turma inclusive a pessoa que você gostava, senão você teria azar no amor por sete anos, mas caso recebesse o papel de volta, a pessoa também gostava de você, e no fim você recebia de volta o papel 7 vezes por dia. Pois bem, esses dias eu descobri que uma coisa dessas pode ser legal, e entrei numa corrente literária que tá  rolando e é muito amor. Nela nenhum morto vem te buscar, mas também ninguém prova amor incondicional por você com um bilhetinho, mas ainda assim vale a pena. A corrente consiste em enviar um livro da sua estante para uma pessoa que você talvez não conheça mas que está a 2 graus de separação de você, e fazer com que mais 36 pessoas enviem algum livro da estante pessoal para você. Soa divertido, soa poético, soa literário. Quando a Clarinha me chamou pra participar, achei que seria a coisa mais rápida e indolor que pudesse existir.

Acontece que eu sou do tipo que pede desculpas pro livro quando precisa se desapegar. Eu digo “obrigada por tudo, tivemos bons momentos, mas agora precisamos conhecer pessoas novas, sabe, o problema é que você é bom demais pra ficar comigo, mas guardarei as boas lembranças”, e quando fui ter uma conversa muita séria com a galera da minha estante, quase vacilei. Na verdade tive o equivalente ao que os jovens chamam de remember com muitos dos meus livros (que, pensando bem, nem são tanto assim). Separei os que eu não poderia de jeito nenhum permitir que existissem em algum lugar senão dentro do meu quarto dos que são tão bonitinhos que talvez valessem mais fazendo outra pessoa feliz do que juntando pó. A segunda pilha foi difícil, confesso. Já estava aceitando que não sou nenhuma monja, não nasci pra empatia, pro compartilhar, não sei nem qual o gosto da pessoa, vai que ela odeia meu livro e deixa ele perdido num canto? quando peguei pra fazer carinho um livrinho fininho chamado Peixe Grande, escrito pelo moço Daniel Wallace – talvez vocês estejam associando ao filme do Tim Burton e têm todo motivo pra isso, porque o filme é baseado nesse livro.

Eu me apaixonei por Edward Bloom no segundo em que ouvi seu nome, e me desapaixonei por Edward Bloom no segundo que li. Esse é, desde sempre, meu filme predileto. Meu livro? nem tanto. As histórias são diferentes, devo dizer e paro por aqui pra evitar qualquer spoiler e porque nem é a ideia do post. O que eu preciso dizer a respeito disso é que, apesar da história do filme ter sido sempre a minha predileta enquanto a do livro me angustiava, eu não quis me desfazer desse. A essência estava lá de alguma forma, Edward Bloom poderia não entender e se sentir traído, e enquanto tinha uma DR com o personagem da história folheava o livro porque é involuntário.

O que aconteceu, e esse, finalmente, é o ponto dessa história toda, é que encontrei, dentro do livro um pedacinho de papel menor que meu dedo indicador, com um apelo numa letra que eu não reconheço: “traz meu livro”.

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Não lembro de ter emprestado o livro pra alguém que pudesse ter colocado o bilhete lá. Não lembro de ter roubado livro de alguém pra ter que levar de volta. Não lembro de ter tido contato com o mundo na mesma época em que pensava em morar em Spectra. Ou seja, só pode ter sido o Universo. E quando o Universo fala, a gente responde “sim, senhor e obrigada!”, e foi o que eu fiz. Levei o livro de Fernanda, mas não sem antes dar um lidinha rapidinho aqui só pra ver um negocinho, e entramos em outra história agora. A história de como Peixe Grande – o livro, de repente fez muito mais sentido pra mim, e de quando eu talvez tenha mudado um pouquinho pra me sentir muito mais acolhida e interessada por uma história mais realista e plausível do que por uma história fantástica (em todos os significados) e sensível.

Fiquei achando que cresci e amadureci enquanto explicava pro livro que eu tinha que obedecer o Universo.