pelo direito de permanecer calado

Este não é e provavelmente nunca será um blog voltado para discussões político-partidárias e, sinceramente, enquanto escrevo me pergunto “preciso mesmo falar sobre isso?”. Sim, preciso. Preciso porque dói imaginar que o episódio de ontem será esquecido como tantas coisas que são e não deveriam. Preciso porque o que foi dito ontem ultrapassa questões partidárias, questões religiosas, ou qualquer questão de opinião pessoal.

O debate político exibido ontem (28/09) pela rede Record nos mostrou algumas coisas: A primeira é que a questão da homofobia no país ainda é algo extremamente presente e problemático, e vai além de uma ou outra reportagem sobre ataques físicos e verbais contra gays. A segunda é que o desgosto e o repúdio por pensamentos como o de Levy Fidélix foi muito bem demonstrado na internet, e de repente, até o mais engraçadinho das redes sociais ficou sério, falou o que pensa e mostrou que o mundo não está de todo perdido. Quem eu sigo no twitter me representa, mas isso é algo que devemos apontar como positivo? Quer dizer, sim, é, mas não deveria ser óbvio, ser esperado? Perceber que as pessoas à sua volta concordam que todos merecem respeito e aceitação independentemente de raça, orientação sexual, classe social, sexo, etc, etc, é excelente, mas não é o mínimo? E da mesma forma, quando todos nos lamentamos pela legislação no Brasil ser tão superficial em relação à homofobia, eu pergunto: É mesmo necessário que alguém assine uma lei dizendo que se você fizer o que fez Levy Fidélix, você está indo contra os princípios morais de uma sociedade e deve ficar isolado por alguns anos como pena? Não estou dizendo que não deve haver uma lei. Deve sim, e com urgência.

Existe uma linha tão tênue entre a liberdade de expressão e desumanidade que raramente percebemos em qual lado dela estamos, mas o discurso transmitido ontem em rede nacional foi repleto de discriminação, ameaça, e incitações ao repúdio e violência, e foi muito, muito além de uma simples opinião pessoal.

Há muito mais de indigno no que foi dito, porque não basta que alguém, em pleno 2014, ainda compartilhe de pensamentos tão homofóbicos. É pior quando lembramos que este alguém (e outros ainda) está se candidatando à representar um país de cultura e composição tão diversa. É ruim que concordem, mesmo que não digam em voz alta, mas é muito pior quando aplaudem a “coragem” de alguém que “diz o que pensa”, afinal é apenas a “opinião” dele. Não exagera quem compara esse cenário ao nazismo de Hitler.

Veja bem, você pode não aceitar homossexuais, bissexuais, transexuais, pansexuais, assexuados, e ainda, negros, orientais, pobres, advogados, padeiros, e qualquer outra pessoa que não seja você. Você pode não se aceitar também. Infelizmente, também é contra qualquer moral (ou a minha, pelo menos) que seja tirado de alguém o direito de gostar ou não gostar, a liberdade de ser a favor ou não. Mas a partir do momento que a sua opinião, ao ser declarada, ofende, reprime, exclui a liberdade de outros de fazer exatamente o que você tem liberdade para fazer, e exclui o direito de alguém de ter o que a maioria tem (como o direito de se unir em matrimônio com outra pessoa, ou até mesmo de demonstração de afeto em público), isso certamente não é liberdade ou direito, assim como não foi a fala do candidato do PRTB à presidência do Brasil, ao deixar explicito que a homossexualidade é falta de vergonha na cara, que a maioria deveria combater a minoria, e que gays devem passar por tratamento psicológico (“mas longe daqui”).

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