Offline

Tirei umas férias no mundo das trevas e voltei pra contar. Passar quatro meses sem a posse de um aparelho celular no século 21 é realmente horrível.

Depois de culpar o sistema capitalista por colocar a pessoa em uma situação tão desesperadora que ela não tenha outra opção senão levar meu celularzinho embora – e acabar em uma situação pior ainda já que a tela dele estava estraçalhada -, depois de cair-me em piedades, ao invés de corroer-me de ódios, por essa vítima da cultura consumista que reina sobre todos nós, ou pela dificuldade de uma vida desmoronada pela cleptomania, ou pela desigualdade da distribuição de recursos, ou pela malandragem pura e clássica, foi hora de enfrentar os desafios do dia-a-dia de uma pseudo-hippie.

Que nenhum de vocês tenham que levantar da cama pra saber que horas são. Cada acordar meu eram um mistério: são 8h? são 12h? A realidade de não saber se você deve levantar para tomar café da manhã ou almoçar faz com que seu dia comece já em uma montanha russa de incertezas. Desumano. Sorte ninguém depender de mim para alguma coisa numa hora exata, caso contrário eu teria que arrumar um despertador.

Agora, imagine você que, se eu quisesse encontrar meus amigos, por exemplo, tinha que combinar horário e local de encontro previamente. E se alguém se atrasasse era impossível saber se o metro havia parado, se a pessoa fora sequestrada, e os momentos de ansiedade podem ainda me render horas de terapia. Já quem quisesse se comunicar comigo era obrigado a buscar outros meios, ás vezes muito arcaicos, como quando me enviaram um e-mail.

Para postar fotos no instagram, eu precisava de uma câmera de verdade. Pra ir ao mercado, a lista de compras tinha que ser feita em um papel, e os amigos de verdade, para enviar fotos constrangedoras e piadas engraçadinhas provaram seu companheirismo indo até o fim do mundo por mim – quer dizer, abrindo o chat do facebook no lugar do whatsapp.

Fui obrigada a abusar da criatividade na busca por passatempos. Digo, levar um livro na bolsa pra me desvencilhar do tédio das locomoções em transporte público foi fácil, mas quando você sai em grupo para jantar e não há nenhuma parede de tijolos para serem contados naquele momento em que todos resolvem, ao mesmo tempo, checar todos os aplicativos possíveis de seus respectivos smartphones, a vida pode mostrar um lado muito mais negro do que o normal.

É claro que eles nunca saberão o valor que tem ver a expressão de alguém que pede seu numero de celular e ouve um “não tenho”. Sem falar que eu posso matar todo mundo de inveja por não ter vivido a crise dos risquinhos azuis de visualização, e não ter recebido correntes de Natal e Fim de Ano. 

Entendem? A lição disso tudo é que devemos sempre saber ressaltar o melhor das piores situações. E que não devemos nunca, nunca!, andar igual uma lesma na frente das pessoas enquanto mexemos no celular.

Sério, não andem igual uma lesma na frente das pessoas enquanto mexem no celular.

Sério.

Anúncios

Um comentário sobre “Offline

  1. Gente do céu que situação heim! Engraçado que antes de começar a ler o post fiquei pensando nas coisas em que as pessoas geralmente são mais viciadas quando se trata de smartphone e você falou tudinho ahaha. Acho que eu não sentiria tanta falta do meu telefone, a não ser, é claro, nos quesitos “telefone” e “despertador” . Que 2015 te traga muitos telefones e pouca lesmice, um ótimo ano pra você !
    Bisou bisou ^_^

    Curtir

comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s