Desilusão de amorótica

Quando Pedro passou por Clara naquela noite, sentiu todos os seus músculos se contraírem de uma só vez. Linda, como sempre.
Fazia algum tempo que não se viam, mas não importava muito. Não se importavam em não se ver ou se falar todo dia, nem todo mês, nem todos os anos. Não duvidavam da mutualidade do carinho e da saudade, nem que se encontrariam, nem que se despediriam de novo. Eles tinham uma rotina de se desencontrar, um amor quase amizade que hibernava com frequência, mas que acordava eventualmente. E se apaixonavam de novo. E planejavam o resto da vida toda, o casamento, os filhos, os netos. E desistiam, porque obviamente não daria certo. Clara e Pedro eram muito parecidos em muitos aspectos – os errados, principalmente. Para ele era tudo imenso, e ela, que queria sempre mais, adorava. Para ela estava sempre tudo bem, e ele, que se preocupava tanto, se acalmava. Mas ele criava problemas, e ela não conseguia o alcançar. Então eles não se importavam em ignorar que foram feitos um pro outro, e procuravam felizes, alguém mais que tivesse sido feito pra eles também.

Quando Luíza passou por Daniel, o barulho da rua se silenciou por um instante. Aquele sorriso dele não mudava.
Durante a adolescência ninguém entendia. Eram inseparáveis, mesmo que ele a irritasse, mesmo que ela o provocasse. Mesmo que alguém sempre tivesse uma opinião a dar, um motivo pra que não ficassem juntos, eles não saberiam explicar um mundo sem a companhia do outro. Se equilibravam por seus extremos, se completavam no que faltava. Até que não se completassem mais. Ele estava em outra, e ela estava feliz por ele. Ela estava em outro, e ele feliz por ela. Substituíram as pessoas nas fotos e nas memórias que teriam quando fossem velhinhos. Os filhos dele não teriam mais a cor dos cabelos dela, ele não ensinaria mais os filhos dela a nadar, mas eles aprenderiam mesmo assim.

E de qualquer maneira, mesmo que os corações dessa história estivessem tranquilos e as cabeças estivessem no lugar certo, uma pequena explosão aconteceu quando o universo achou que seria divertido pregar uma peça em dois desconhecidos. Por uma fração de infinito, quando Pedro passou por Luíza, se apaixonou perdidamente por aquela Clara de novo, e quando Luíza passou por Pedro e viu Daniel, ela não sabia mais explicar o mundo.

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