Bibi, motherfucker

Paula estava ansiosa pela notícia que definiria o rumo da vida de sua filha. Esperou a pausa para ver a mensagem que ela havia mandado pro seu celular. É claro que o porqueirinha escorregou da mão de Paula direto pra debaixo do banco, como é preciso que aconteça sempre que estamos com pressa, e ela teve que esticar o braço de uma forma quase sobrenatural pra alcança-lo sem ser obrigada a tirar o cinto de segurança.
Ainda que fosse uma mãe, mas já com mais de duas emoções sendo experienciadas ao mesmo tempo, Paula não viu a luz ficar verde.
Jonas, que estava logo atrás de Paula, vivia um momento extremamente difícil aquela manhã: era quinta feira. Não que seria diferente se fosse uma segunda ou quarta ou domingo. Todos os dias eram extremamente difíceis pra Jonas, mas não havia nada, absolutamente nada no mundo, que facilitaria a sua vida numa quinta feira com reunião logo no começo do expediente. Jonas trabalhava numa empresa que vendia máquinas de fotocópias, e acreditava muito na importância do seu trabalho. Era, portanto, inconcebível para ele chegar na pequena sala de reuniões qualquer minuto após o combinado. Aos 53 anos, Jonas achava que atrasos eram coisa de jovens preocupados apenas com drogas e promiscuidade.
Atrás dele, estava Luca, um jovem preocupado apenas com drogas e promiscuidades. Luca estava, obviamente, atrasado. Não que ele soubesse disso ou se importasse muito, afinal todos os seus amigos se atrasariam também. Mas ele não via a hora de encontrar Madu, que tinha acabado de trocar de período e ainda era novidade pro garoto.
Marcela tinha acabado de parar logo atrás de Luca. Tinha tomado seus comprimidos de manhã, então estava tranquila. Não havia nuvens no céu, o dia estava quente e ela arriscou até abrir uma fresta da janela – o suficiente pra deixar uma fina faixa de ar passar acima de sua cabeça.

Um segundo e meio após o farol abrir e o carro da frente ainda não tinha se movido. Só podia ser um drogadinho de merda que não serve pra nada que presta e usa todo o dinheiro do pai e afunda esse país, pra não ter se mexido até agora. Essa ideia foi o suficiente pra acabar com o dia de Jonas. Sera que ninguém pensa que pelo menos uma pessoa nesse mundo está interessada em trabalhar e movimentar a economia? Sera que ninguém é capaz de respeitar um senhor digno que acorda todo dia no horário e faz tudo da forma que é esperado e paga as contas de sua casa e mantém seus filhos e mulher na linha? Se houvesse pelo menos mais 1 ou 10 ou se todos fossem como ele, as coisas seriam diferente. Mas Jonas não ia se atrasar por causa de um marginalzinho sem respeito e educação. Apertou a buzina do carro como se enfiasse uma palmada da cara daquele sem vergonha que devia ser preso pela falta de consideração com os trabalhadores. O barulho quase não foi alto o suficiente para tornar inaudível o que Jonas deixou bem claro que seria a profissão da mãe do safado que estava a sua frente.
Luca que procurava uma boa música pra acorda-lo, já que estava quase dormindo, se apoiou no volante pra mexer no botao do rádio, bem onde ficava a buzina. O som estridente de duas buzinas repentinas e sincronizadas soou hilário para o rapaz. Quase qualquer coisa soava hilário para Luca – menos quando ele tinha uma bad trip. Esse dia todo estava muito hilário, tão hilário quanto a sociedade em si, que obriga as pessoas trabalharem todos os dias, como se fossem formigas e elas são formigas de mente tão fechada fechada tão fechada que aceitam e isso é hilário porque se não for hilário vai ser triste tão triste como o som da palavra “triste” e hilário como a palavra “hilária”. Então, só pra cair na gargalhada, ele apertou de novo a buzina, e mesmo depois de ter parado continuou a ouvindo na sua cabeça e achando a palavra buzina hilária.
Marcela que se assustou com o barulho dos carros a frente, entrou imediatamente num estado de pânico. Ela sabia o que aconteceria em seguida, algo muito ruim ia acontecer, ela morreria, ou alguém a veria e falaria com ela ou iriam assaltar e poderiam ter uma faca ou uma arma, a respiração dela estava ofegante, ela toda estava ofegante e precisava sair de onde estava e correr muito rápido mesmo que ela não conseguisse se mexer. Então, para que pudesse chegar logo em qualquer lugar que não fosse lá ou aquela cidade ou algum país que existisse fisicamente, entoou o coro de buzinas também.

O som que se seguiu pelos infinitos 3 segundos seria capaz de cortar a cabeça de alguém. Aquele som carregado de pressa, de ódio, de imposições, de ameaças, fez alguns não nativos se encolherem, fazendo caretas e pensando “como alguém poderia conviver com aquilo, todos os dias, toda hora”
Eu não sei como podem.

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