Carta ao passado

Querida Ananda,

Você não me conhece. Eu, na verdade não te reconheço. A essa altura da sua vida, algumas pessoas já devem ter te falado que te viram neném “desse tamanhinho” e que você está muito grande, nossa. Eu sou tipo essa pessoa. Eu vi alguns momentos da sua vida, mas não estive presente. Eu não existia, porque quem existia era você, e entre nós existe uma década inteira separando os seus treze anos dos meus vinte e três.

Explicações dadas, vamos ao que viemos. Você vai achar isso maluco, imagino, é meio que seu estilo esse negócio de viajar no tempo, de fantasias, de qualquer coisa que pareça contrariar a realidade, e apesar de eu ser alguém muito mais cética do que você, não tirarei esse gosto. Sinceramente, tenho um desenho do perfil de sua personalidade. Você é um tanto orgulhosa e teimosa, e hoje eu descobri que isso é porque tem ascendente em Touro. Não se preocupe, hoje isso ainda não faz diferença pra você, mas foi dito e não podemos discordar. Se quer tirar a prova, outras características são: preguiça, persistência, e imutabilidade. De qualquer forma, eu sei que é burrice vir te dar conselhos. Você não pediu, nem precisa. Se eu bem me lembro, você está curiosa, e não sedenta por sabedoria, então esteja preparada. Não vale a pena se preocupar, tenha isso em mente, porque se estou aqui, alguma coisa deu certo:

O seu primeiro amor não será o último. O segundo também não. Nem o terceiro. Não tem problema nenhum nisso. Acontece que vai chegar um momento em que você vai parar pra analisar os contos de fadas e perceber que eles são absurdos, que você não quer eles, e que existem gêneros literários muito mais interessantes, e que sua vida será muito melhor lida se colocada em outra prateleira.

Você vai continuar se sentindo só, mesmo que chegue a fazer vários amigos. Faz parte de você. Mas também não tem problema, porque haverá um momento que você vai se gostar tanto que até essa parte sua será apreciada. Aprenderemos a aceitar uns momentos conosco, aprenderemos que somos companhia boa o suficiente, e que a solidão não exatamente é uma coisa ruim, apenas um pouco incompreendida.

Você vai encontrar paixões inesperadas, e eu não estou mais falando de pessoas. E você vai achar, pois eu ainda acho, que é por elas que você vive. Isso é, se viver necessita de motivos, o seu propósito serão outras vidas. E ainda que venha mais do que você espera, não virá tudo logo. Também, você não espera demais? Te dizem, eu sei, que você não tem pés no chão, que voa longe, que não está na realidade. Se te dizem como crítica, se falam com o objetivo de te fazerem alguém diferente e portanto melhor, continue o fazendo. Ignore, como eu sei que vai, independentemente de vontades opostas. Ignore e continue voando, porque é isso que nos mantém em movimento. E parar não vale a pena.

Você vai se achar em você, e depois vai se esquecer e depois vai se achar de novo. O poço, felizmente é raso, porque a escuridão não é pra você. Durará em você mais que no mundo material, mas tudo tem um fim, e o das coisas que não te agradam é sempre próximo. Todo fim é próximo, quando se está no futuro. Mas não seja pessimista. Eu vi que o fim é sempre o começo de alguma coisa, e você também vai ver.

Do mais, você se dará bem. Eu, enquanto isso, estarei indo atrás de ser ótima, pra que, caso recebesse uma carta do meu eu futuro, pudesse saber que estou magnífica. Eu te contaria caso não fosse uma enorme ousadia temporal, então aprenda a ser paciente.

E como um único conselho, se por algum milagre ou medo resolver aceitar, procure-se nas palavras. Elas são medicinais, e cuidar-se nunca é um problema ou perda de tempo.

Um cafuné,

Ananda

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