vê aqui que ideia gostosa

a sinestesia é a capacidade de perceber diversos sentidos de forma fundida. o sinestésico é capaz de sentir gosto de cores, ou o cheiro de sons, ou a textura de imagens. essa condição que, aparentemente, é uma mutação genética, acontece porque os neurônios se hiperconectam ou algo do tipo, não sei exatamente.

o dois é amarelo, sabe? isso não é voluntário. todo dois vai ser amarelo, independentemente de onde ele estiver ou o que mais seguir ele. o zero, que não é nada a não ser que esteja acompanhado, logica e justamente é furta-cor, sendo o 300 um degradê de azul, o 70 laranja, assim como o 7 sozinho, e o 42950 um belo arco-íris.

eu não preciso me esforçar pra escrever isso, nem estou sob efeito de drogas, número são coloridos e fim, isso é óbvio. assim como algumas fotos de infância são quentinhas e macias tanto quanto um bolinho de chuva. algumas músicas tem a lembrança de uma casinha branca com muro de madeira e plantas no quintal, de um dia que eu nunca vivi, mas que estava usando um vestido azul claro esvoaçante, porque mesmo que estivesse calor, ventava, como se já já fosse chover, o que seria ideal pra ficar dentro de casa lendo um livro.

seguindo o fluxo dessa ideia maluca da mesma forma que o youtube relaciona videos que mais ou menos tem ligação, a individualidade das percepções de mundo virou uma pauta muito recente nas minhas reflexões diárias. indo além do insight de que algumas pessoas enxergam sons, outras ouvem sabores, e pode ter alguém que seja tocado por um cheiro, sacamos que ninguém percebe o mundo do mesmo jeito. já passamos, provavelmente, pela ideia de que o vermelho que eu vejo não é o mesmo vermelho que você vê, porque as cores só existem dentro da nossa cabeça, então será que é possível explicar pra um daltônico a diferença entre azul e verde?

ou será que é possível um cego realmente entender o que é o racismo se ele nunca viu tons de pele? será que um surdo sente a mesma angústia quando o desenho que ele está assistindo é interrompido pelo Plantão da Globo se ele não ouve aquela musiquinha horrível, ou medo quando um trovão acontece muito perto? e no fim, quando foi que começamos a considerar normal ou aceitável tratar essas condições como deficiência?

outro dia acabou a luz na rua e deve ter sido o maior intervalo de tempo em que eu não enxergava absolutamente nada e eu achei engraçado o fato de algumas pessoas terem se incomodado quando resolvi pintar meu cabelo de rosa, e acho que nesse momento eu percebi como perdemos tanto tempo tendo dó de pessoas pelas limitações físicas delas porque achamos que nós somos perfeitamente desenvolvidos, e que a forma como percebemos o mundo é mais certa, sendo que… não tem certo.

sério, gente, se conseguíssemos ver o mundo do lado de fora do corpo de um humano, nada disso ia ser igual, teríamos só um monte de molécula se debatendo, sem cor, sem cheiro, sem som, sem sabor.

e somos tão apegados à nossa forma de entender as coisas só porque ela mais comum, que ensinamos fórmulas pra acharmos a velocidade com que um corpo cai de um prédio antes de ensinarmos pras pessoas os sinais básicos de comunicação com surdos, ou a escrever em braile, ou como ajudar o amigo autista quando ele fica muito mal com alguma coisa.

e as pessoas ainda me perguntam por que eu to aprendendo libras.

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