59:59

Ok, você e a galera entram numa sala estranha pela primeira vez pelo motivo mais simpático que pode existir, ninguém queria encrenca nenhuma, mas o mundo não é legal com os de bom coração e quando você pensa ‘é talvez a gente devesse sair daqui, galera, que tal?’ a porta vai fechando com um rangido agudo e bate fazendo vocês perceberem que estão trancados e a unica coisa que pode acontecer a seguir é: dar ruim. Tudo bem, tudo sob controle, você é uma pessoa esperta, calculista, vocês vão sair dessa antes do vizinho que talvez seja um psicopata voltar, e olha só, talvez ele nem seja tão psicopata assim. É só mantar a calma, avisar todo mundo pra manter a calma e talvez dar um tapa na pessoa que está choramingando – quer dizer, talvez seja você mesmo que esteja. Pensa, gente, como qualquer lugar assustador, a saída esta exatamente aqui dentro, afinal de contas que ladrão não deixa um lembrete da senha da porta do cofre dentro do próprio cofre? e que maníaco não esconde as chaves embaixo do tapete com um pequeno detalhe que lembre ele de qual cofre mesmo é aquela chave? Que assassino não deixa um controle reserva da porta de casa dentro de uma caixinha escondida no taco falso do piso? Só o que vocês precisam fazer é encontrar isso em menos de uma hora e voltar às suas vidas normais como se essa não tivesse sido a maior burrada do mundo. E também tem a chance do vizinho não ser tão psicopata assim.

Nos meus tempos de menina, que eu passava várias horas solitárias em casa, eu tinha esse certo vício em jogos de escape. Eles te faziam instalar uns java flash sei lá o que e, geralmente, eram bem feinhos, que você se perguntava ‘sério, quem decoraria uma sala desse jeito?’. Eles te faziam adquirir a síndrome do clique frenético, ansiedade e medo de espelhos, mas por outro lado você aprendia a esconder qualquer coisa num vaso de planta, com a segurança de que essa coisa só seria encontrada quando a planta fosse regada. Você aprendia códigos, aprendia a fazer uma chave de fenda com uma régua, aprendia a transformar um ventilador em um helicóptero e a fugir de uma ilha dentro do papo de um pelicano. Você era basicamente invencível.

giphyweeeeeee

E por isso eu sempre vi essas horas que passei jogando mais como um investimento, sabe? Porque as garotas da minha idade podiam até beijar na boca, mas essa é uma habilidade que não serviria de nada se alguém prendesse elas na masmorra de um castelo, né mesm?

Hoje eu sei que os jogos de escape online me prepararam para um momento de extrema importância na minha vida, algo que somente vivendo para entender que tudo não era apenas um capricho, mas um aprendizado para a vida: os Jogos de Escape de Vida Real! (imaginem um letreiro piscando com tambores ressoando ao fundo).

Como tudo o que a internet tem de bom a natureza copia, agora temos emoção em tamanho real. Hoje eu entendo as pessoas que brincam de tetris humano, e se vestem de Mario, porque hoje eu lembro de quando eu era pirralha e pensava ‘imagina só que loco se eu tivesse trancada numa sala’ e rio risadas humoradas de alegria porque eu sei que loco seria se eu tivesse trancada numa sala. Hoje eu digo pra vocês, crianças, uma das coisas mais tocantes da vida é o ‘clic’ do cadeado abrindo com aquela senha impossível.

E olha que hoje em dia eu beijo na boca.

Anúncios

2 comentários sobre “59:59

comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s