Lado esquerdo

Se você mora em São Paulo deve saber que existe um problema muito sério em ficar parado no lado esquerdo de uma escada rolante. Se você não sabe, você é um problema muito sério.

As necessidades fisiológicas básicas de um paulistano são mais complexas do que a de um cidadão comum. Além da fome, sono, o pipizinho urgente, etc, o paulistano tem a necessidade de ter pressa. Ele começa a sentir um agonia dentro do peito que escorre pra baixo, apertado as coxas, repuxando os joelhos e por fim causando formigamento em toda a extensão da sola dos pés. E se a pressa do paulistano não é saciada rapidamente ele começa a apresentar os sintomas, começando por um resmungo baixo e quase imperceptível, mas que exala uma onda contagiante. Em seguida vem a cara fechada, acompanhada de bufadas congestionadas de mau humor. Nesse nível, a pressa já pode ter sido passada para qualquer outro paulistano que esteja numa distância equivalente a um vagão de metrô. A pressa em si não é problemática, mas por ser contagiosa e por ter sintomas tão fortes e irritantes, é sempre preciso evitá-la em São Paulo. É por isso que é terminantemente proibido ficar parado no lado esquerdo da escada rolante, ferramenta mais amada e utilizada por quem tem até o dobro de pressa de uma pessoa normal, ou seja, o paulistano. Ficar parado no lado esquerdo da escada rolante pode ser o gatilho para a disseminação de pressa à nível municipal por uma simples corrente de vibrações. Se um paulistano está de mau humor às 7h, pode ter certeza que alguém está parado no lado esquerdo de alguma escada rolante – inclusive, dependendo do nível de mau humor é possível dizer em qual estação de metro essa pessoa resolveu se empacar, com um calculo básico que se assemelha aos cálculos sismológicos.

Quando o paulistano está numa escada rolante e percebe que alguém (provavelmente um não-paulistano) pretende parar no lado esquerdo, ele se acomete da pressa psicológica e súbita, sendo instintivamente levado a subir até a altura da pessoa e pedindo licença para passar. É o corpo do paulistano dizendo “por favor, não seja uma pessoa inconveniente e indiferente à pressa alheia” e torcendo pra pessoa errada se tocar e discretamente ir para o seu lugar de direito (que podem ser dois: ao lado ou pra cima). Dias desses eu tava com a pressa saciada e por isso parei na escada rolante – do lado direito, claro! – deixando com que ela fizesse meu trabalho por mim, no momento em que um senhor comete o crime de parar do lado esquerdo. Eu por estar numa posição desfavorável, nada tinha a fazer a não ser esperar pelo paulistano que reagiria àquela imoralidade, até que percebo no semblante do senhor (que provavelmente não era um paulistano) um irônico e indiscreto sorriso, que gritava a todos os paulistanos presentes naquela escada que eles que se danassem, afinal a pressa de ninguém é mais forte ou mais importante que a tranquilidade de outra pessoa.

Conclui-se que aquele senhor, na verdade, não fazia parte do grupo não-paulistano, mas de um grupo ainda mais distinto ao paulistano que sofre de pressa.

Aquele senhor era um paulistano zueiro.

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