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Existe uma caixinha no meu guarda-roupa com uma quase-bolinha de borracha vermelha, dois buraquinhos e um cordão de silicone com as duas pontas amarradas em cada extremidade da bolinha. Essa caixinha está dentro de outra caixinha, isso não interessa muito porque as duas caixinhas são transparentes e não é exatamente um segredo que eu guardo bem escondido, mas talvez eu devesse. Nos dias que eu acordo desanimada e confusa eu lembro de usar a máscara. Ninguém nunca vê, mas eu passo a cordinha pelo pescoço e encaixo a bolinha no nariz, e ela acorda. Ela muda meu rosto e faz os olhos brilharem, assim, instantaneamente. Eu me olho no espelho e só vejo ela, enorme, nem parece que cabe na palma da mão. Eu rio, mesmo que rir não faça sentido. Às vezes eu rio da risada e o riso fica leve, às vezes eu preciso fazer careta, às vezes dá vontade de chorar porque a máscara pesa. A menor máscara do mundo. A mais pesada máscara do mundo. Ser palhaça é difícil, não sei se dou conta. Ser bobo não é pra qualquer um.

Depois dela é claro que veio o apito – que não é apito. E depois o cavaquinho – que não é cavaquinho. E eu descobri que eu sou assim mesmo, gosto das coisas que não são o que parecem ser, gosto de enganar os outros e falar ‘não, esse é diferente’. Tenho um leve prazer malvado em ver o comum fazendo a gente bater com a cara no muro e obrigando a reaprender e desaprender, esses momentos são pura poesia. Não é com um só tijolo que se constrói uma torre, e não é soprando que se toca um kazoo. Já o cavaquinho que não é cavaquinho, é ukulele (a tônica você coloca onde quiser, não importa muito) me levou a conhecer gente que eu nunca teria conhecido, pisado num auditório que eu nunca teria pisado, participado de uma coisa que eu nunca teria participado e visto uma árvore que dá garrafas que eu nunca teria visto se não fosse por ele. Foi assim que eu, que nunca consegui aprender a tocar instrumento nenhum, me vi dentro de uma orquestra. Vê como tudo é possível?

Como eu jurava de pé junto que ia voltar pra faculdade, eu não quis mais, e como ou a gente aceita o sofrimento ou aceita a tranquilidade, eu resolvi fazer as pazes com as minha decisões. A faculdade e eu hoje somos ex namorados que são muito bons amigos se ficar cada um no seu canto, vivendo sua vida. Ficou acordado entre a gente que eu fiz o melhor que poderia fazer, caso contrário teria feito melhor, e que assim vai ser enquanto eu fizer alguma coisa, mas que faculdade, paixão e trabalho não têm, em nível algum, em situação alguma, relação obrigatória. Obviamente, depois disso, eu voltei pra faculdade, mas só por 10 dias (como eu disse, não foi um término traumático, ainda somos amigos tecnicamente). Viver sua paixão é uma delicia, principalmente enquanto ela não vira obrigação. Flertamos um pouco, mas terminamos antes de descobrirmos os nossos defeitos, é assim que amores de verão sempre dão certo.

Pra não dizer que só falei de mim, a política anda uma porcaria, mas isso não é bem novidade. Já que pintaram os muros todos da cidade de cinza, eu pintei o meu com tinta branca, e ainda vou preparar as intervenções artísticas pra representar o meu descontentamento. Cidade feia, quarto bonito, estou em um íntimo manifesto, até subi na mesa pra demonstrar minha rebeldia. Ops, já voltei a falar de mim.

Eu descobri que gosto do mar. A minha cor atualmente é o amarelo. Eu parei de tomar café. Ando com saudade da minha irmã.

Ando empolgada com filmes e séries e livros e músicas. Me apaixonei tanto por Please Like Me que assisti tudo duas vezes em menos de dois meses. Abracei o Tibério Azul, risquei alguns itens da lista. O outono chegou e a vida sempre faz mais sentido no outono.

Acho que era isso.

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