50 questions #9 e um buquê de rosas

9. Em que nível você tem, de fato, controlado a sua vida?
Esse post está pronto na minha cabeça há algum tempo, e uma força sobrenatural o prendeu até o dia de hoje, o Dia Oficial do Textão. E pra homenagear todas as cabeças pensantes, estamos de volta com mais uma resposta filosófica, esclarecendo como a vida funciona.

Por algum tempo, que equivale a praticamente minha vida toda, eu tinha na mente que quem cuida da minha vida sou eu. Que estamos aqui apenas uma vez, então devemos fazer o que temos vontade, do jeito que queremos e tudo mais.

Recentemente eu aprendi que não é bem assim, porque eu percebi que nasci mulher. É claro que nascer mulher não é problema nenhum-muito-pelo-contrário. Acontece que eu nasci mulher num mundo de homens, e isso significa que eu não posso fazer uma lista considerável de coisas que eu gostaria, tipo me sentir segura.

Eu nasci menina num mundo em que mulheres não podem viajar sem a companhia de um ser superior-homem, e que são estupradas, e que são mortas, e que são submissas, e que são assediadas diariamente. Eu nasci escancarada num mundo em que meninas têm que sentar de perninha fechada, e nasci com calor num mundo em que menina tem que usar roupa comprida pra não chamar atenção na rua, e nasci dondoca num mundo onde as meninas têm que arrumar a casa e a comida e as roupas do marido. Eu nasci nervosinha demais em um mundo onde as mulheres têm que ficar quietas, e sem um pingo de paciência num mundo em que garotas devem sorrir e rir das piadas dos rapazes pra que eles se sintam no controle da situação.

Eu nasci num mundo em que se uma mulher é independente ela é chamada primeiro de bruxa e daí é queimada, depois de rebelde e daí é presa, depois de louca e daí é internada, depois de feminista e daí é espancada. Eu nasci escandalosa em um mundo onde, se eu quiser alguma coisa, eu vou precisar fazer um escândalo, e se eu não preciso fazer é porque alguma outra louca já fez por mim.

Eu nasci num mundo onde chamam o maior grupo de minoria, e a “maioria” que tem tantos pré-requisitos pra se existir, é capaz de controlar a minha vida em, talvez, todos os seus aspectos.

E por mais feio que seja, poderia ser pior. Eu poderia ter nascido extremamente pobre num mundo de ricos, eu poderia ter nascido negra num mundo de brancos, eu poderia ter nascido gay num mundo de héteros, ou trans num mundo cis, e tudo seria muito mais difícil do que já é.

Mas dói mesmo assim, porque eu nasci empática num mundo de ignorâncias e egoísmos.

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50 questions #7: Desculpas da vitalidade

7. Are you doing what you believe in, or are you settling for what you are doing?

Ainda que hoje eu estivesse deitada numa cama de hospital suspirando minhas ultimas cotas de ar por direito, não há um momento que me seria motivo de remorsos ou culpas. O que tenho de fazer por dever, tenho feito; O que tenho de fazer por amor não me escapa um dia do pensamento ainda que escape um poco das mãos. Nunca aceitei a ideia da sociedade controlando minhas paixões ou motivações. Não acho que valha a pena viver de acordo com os outros, ainda que eu saiba que os outros não sabem o que precisam, nem o que querem. Mas me controlo porque desconectar-me da sociedade é tão distante e assustador já que a solidão ainda é um grande monstro pra mim. Viver em companhia como é comum de minha espécie, ou deixar de ser controlada por regras subjetivas que são também comum de minha espécie ainda é um dilema pra mim. E entretanto quando o faço é por praticidade, já que as quebro todas em meus planos. Assim, se o que acredito é como uma sentença, e o meu contentamento significa a paz em conjunto, é impossível estar certa do erro. Sim e não vivo pelo que me faz querer viver, sim e não vivo pelo que me possibilita a sobrevivência.

Concluindo, ainda bem que eu tenho a juventude, que me permite fazer o que for com a certeza da coerência e a licença pela estupidez, porque se já fosse mais velha saberia o quão pequena sou e o quão mais forte posso ser. Saberia que por mais que fizesse, a vida inteira nunca me seria suficiente.

50 questions #5 e #6

5. O que você mais gostaria de mudar no mundo?
6. Se felicidade fosse a moeda corrente, o que te deixaria rica?

Não seriam tristeza, nem a dor, nem as doenças. Não seria a Dilma, nem o preconceito, nem a igreja. Se eu pudesse mudar uma única coisa no mundo seria essa ideia de sucesso que ensinaram pra gente que é basicamente a mesma coisa que acumulo material. Ai, lá vem a chic-hippie, branquela, classe média, diz isso mas não acabaria com a pobreza?

É, pois é. Porque, na minha opinião de leiga quando o assunto é economia, eu acredito que não tem como acabar com a pobreza sem acabar com a riqueza. O espaço no mundo é finito, e a paixão pelo poder não é. Enquanto a ideia for ter mais e não ter o suficiente, a pobreza reinará.

Mas e doença? Nada justifica você não querer acabar com elas prioritariamente. Nada enquanto a gente não considera que muitos países morrem por doenças que nós tratamos gratuitamente no SUS, que muitas pessoas aqui mesmo adoecem por falta de infraestrutura básica que não chegou na casa delas ainda, ou porque o governo preferiu investir em Copas e corrupção ao invés de investir em pesquisas científicas.

Ou seja, o problema é a presidenta. Não num país onde as pessoas criticam investimento em transporte não motorizado e na redução de resíduos, não num país onde as pessoas apoiam machismo, homofobia e “justiceiros” de rua.

Um desses, uma vez falou pra mim que existem dois caminhos pra tudo no mundo: o certo e o errado. Esse foi um dos momentos em que mais discordei de alguém. Primeiro porque, obviamente isso é um absurdo, segundo porque isso foi dito como se quem dissesse soubesse a verdade do mundo e qual, de fato, era o caminho certo. Não preciso buscar histórias de pessoas que seguiram exemplos de sucesso e falharam ou vice-versa. Não precisamos nos inscrever numa aula de filosofia que trate de moral e ética. Não preciso dizer que existem muitas religiões diferentes, nem que o caminho de alguém não é o caminho de outro. Não preciso dizer que existem vitórias e vitórias, planos e planos, e que felicidade e satisfação pra um pode não ser pra outro. Não preciso, né?

E no entanto, somos ensinados a aprender para trabalhar, trabalhar para nos sustentar, nos sustentar para sobreviver. E com um efeito dominó, falhamos em um, falharemos no resto. Mas e enquanto isso? Porque não aprendemos simplesmente pelo prazer e necessidade de gerar conhecimento e desenvolver soluções para problemas? Porque não trabalhamos por algo que valha o esforço de um trabalho, por algo que será utilizado por todos? Porque pagamos tanto para sobreviver e tão pouco para viver, e usamos tanto do nosso tempo pra ter um minimo dele depois? Os cinco dias da semana valem o seu domingo?

Ou ainda é possível ser bióloga e viver todos os dias?


E shows seriam de graça, ainda que artistas fossem ricassos

50 questions #4 e como convencer alguém que você tem algo a dizer

4. Quando tudo estiver dito e feito, você terá dito ou feito mais?

O homem criou o avião, e antes de usar ele pra viajar o mundo e conhecer pessoas e culturas novas, usou para destruir as mesmas. O homem, que tinha boas intenções se matou, antes de poder ver sua fênix renascer.

Uma das melhores invenções do mundo, em poucos anos, vira uma extensão da realidade, como se fosse um puxadinho de outra dimensão. O que acontece aqui é escutado e resolvido várias vezes lá, de diversas formas, por todo mundo. Até a solução chegar aqui, a gravidade a distorce. De boas intenções o inferno e a internet estão cheios.

Estou correndo contra o tempo e ignorando um sono irônico para me manter constante num desafio que lancei a mim mesma. O BEDA já está mostrando para o que veio aos quatro passos da linha de largada. O bloqueio criativo é a gripe dos escritores, todo mundo pega uma vez na vida e não adianta tomar vacina porque ela se muta. Preciso aprender a lidar com isso, já que escrever me traz a sensação de dever cumprido. O chá de hortelã com gengibre pra isso, disseram, é escrever qualquer coisa que passe pela sua cabeça, o que explica claramente esse texto.

O que aprendemos com isso, é que para uma coisa boa surgir, pra uma mínima ideia aparecer, é preciso desenterrá-la, tirá-la debaixo dos montes de lixo que a escondem. Todo gênio tem sua gaveta de ideias ruins. Até o Bill Gates já deixou ser lançado o Windows 8.

E ainda assim, se formos otimistas, e considerando o cenário atual, coisas maravilhosas se constroem diariamente, ainda que levem séculos para serem concluídas. Ainda que levem milhões de gigabites de argumentações, ainda que sejam necessárias gerações e gerações para a definição de um conceito.

Quando tudo for dito e feito, eu terei dito mais. muito mais. Porque nada que é feito terá sua funcionalidade garantida sem a ideia geradora. Porque eu estou aprendendo a valorizar uma boa discussão.

50 questions #3 – sobre a inutilidade

3. Se a vida é tão curta, por que fazemos tantas coisas que não gostamos e gostamos de tantas coisas que não fazemos?

Existem as coisas que fazemos porque elas nos completam, existem a que fazemos porque estamos tão completos que elas acabam transbordando. Existem também as coisas que simplesmente fazemos – e tentamos não pensar muito nelas porque é melhor. É que essas nós fazemos porque chegamos num nível de auto-valorização além do limite permitido. Achamos que se não fizermos como manda o roteiro, a falha será certa; o fracasso será merecido. Passamos a acreditar que se estamos aqui, é porque alguém mais inteligente nos colocou aqui, com motivo, destino e tudo mais, e que devemos nos dedicar para mostrar a gratidão do dom da vida, e termos o que é esperado que tenhamos.

Mas vi e ouvi coisas que me fizeram pensar que, talvez, nós fazemos da nossa rotina uma afirmação da nossa importância pra sociedade. Temos que ser úteis. E somos. E há um significado tão concreto em nosso trabalho, porque se não estivermos diariamente, pontualmente, naquele lugar, com aquelas roupas e pessoas, virá o colapso.

Mesmo? Sete bilhões de pessoas no planeta e você é tão indispensável assim? Todas são? Pois se uma sociedade inteira é guiada pela necessidade de fazer seu trabalho valer pela utilidade que ele tem aos outros, chega a ser imoral não fazê-lo. Mas é?

A moda agora, tenho visto aqui a internet, é largar tudo viajar o mundo e fazer o que ama. Muito bem, ótimo. Estou amando que a humanidade tenha chegado num ponto pra questionar a relação vida pessoal – vida profissional, mas me pergunto: Será que daqui a um tempo começaremos a ver empresas quebrando porque seus diretores acharam que a vida era curta demais pra colocar um terninho passar o dia numa salinha? Aposto um pedaço da unha do dedinho direito que não. Aposto que não tem mal nenhum em trabalhar por um ideal, fritando hambúrgueres num trailer ou gravar uns videos ao redor do mundo. No fundo, ninguém é tão importante assim que não possa fazer o que tem vontade, porque a vida é tremendamente inútil.

50 questions #2 e Jostein Gaarder

Atenção: Isso não é um texto motivacional
2. O que é pior, falhar ou nunca tentar?

A Garota das Laranjas (aceito) é um livro curtinho, mas muito lindo como a maioria das coisas escritas por Jostein Gaarder. É sobre um garoto que recebe cartas do seu pai já falecido que, entre várias histórias sobre estrelas e lições de vida, conta coisas do tipo como ele conheceu sua esposa e as filosofias da vida. Lembro que li este livro no computador, e houve um espaço de 5h entre o momento que comecei a ler, e o momento que cheguei na última palavra, com os olhos cheios de lágrimas. Foi o único livro, até hoje, que me fez chorar. Foi a primeira vez que me pensei nessa pergunta. Em uma parte da história, o pai do garoto (que já não lembro o nome) lança a pergunta “É melhor ter uma coisa sabendo que se pode (e que vai) perdê-la ou é melhor nunca ter e não sofrer a perda?”. E é melhor correr atrás de uma coisa que se quer e correr o risco de falhar ou é melhor ficar de boinha, deixar pra lá, evitar frustrações?

A resposta, teoricamente, é obvia. Não conheço alguém que teria coragem de levantar a mão e dizer “eu prefiro ficar quietinho na minha, obrigado”. Mas então por que estamos tão acostumados a deixar sempre tudo pra lá? Por que temos tanto medo de falhar se sabemos que, no fim, as coisas tendem a virar pó? “Por que sim?” é uma pergunta válida, eu sei. Mas “por que não?” é uma pergunta muito mais sensata. Será que é a vergonha do fracasso que supera a liberdade da tentativa?

Faz sentido evitar perdas desnecessárias de energia, principalmente quando a ideia é buscar alguma coisa fora de qualquer realidade possível. É aquela ideia do peixinho tentando voar. Nós não somos peixinhos, somos pessoinhas. Pessoinhas também não têm asas, mas um dia uma quis tanto voar e adivinha o que podemos fazer hoje.

Nesse momento sou levada a pensar em algo que talvez tenha a sua importância. Você provavelmente já ouviu aquela tal frase “Todo mundo é um gênio, mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai gastar toda a sua vida acreditando que é estúpido”. Da mesma forma, se formos tentar entrar num consenso do que é falha, muita gente vai sair daqui fracassado. Poderia acrescentar outra pergunta à lista: “Quando foi que paramos de viver as nossas vidas como nossas e criamos um modelo de sucesso único? Por que deixamos de buscar fazer o que nos define como nós mesmos?”

Talvez seja tudo bem pensar e dizer pra você mesmo que é melhor deixar pra lá algumas coisas. Talvez o problema apareça realmente quando for algo normal dizer em voz alta.

50 questions #1

Existe um lugar na internet com uma lista de 50 perguntas que, eles prometem, libertarão sua mente. Muitas delas parecem simples, mas nem sempre são, e eu resolvi porque sim que vou responder elas aqui, presenteando-vos com a minha magnífica capacidade de argumentação e pensamento filosófico. É claro que, provavelmente, não vão ser todas, provavelmente, não vai ser na ordem e, provavelmente, não vai ter essa coisa de ~dia de responder pergunta~ porque ainda estamos falando de mim, né? É.

Mas comecemos pela perguntinha número um. Valendo:

Perguntinha número um: Quantos anos você teria se não soubesse quantos anos você tem?

Primeiro eu achei que eu teria tipo uns 80 anos, porque corpo fraco, joelho rangendo, etc. Mas aí eu pensei “não, pessoas com 80 anos já passaram por coisas, já viveram coisas, aprenderam coisas, conseguiram coisas” e eu não me lembro de ter esse tipo de acontecimento na minha vida. Eu poderia ter 80 anos e Alzheimer, aí sim ia fazer sentido.

Aí pensei que na verdade, teria tipo uns 10 anos pelas realizações. Não pela quantidade, não que sejam poucas. Pela qualidade. Alegria pra mim é comprar pacotinho de bala Fini no mercado, é quando a mãe traz lápis de cor. Fala pra mim que não faz sentido.

A verdade é que mesmo sabendo a minha idade, muitas vezes eu esqueço, ás vezes desconfio. Passei dos 20 e nem lembro quando foi. Passei pela faculdade e acho que ainda sou a menina que não sabia que curso fazer. Ainda sou aquela adolescente chata que se irrita com coisas de adolescentes chatas, que escreve no diário e acha que a vida vai melhorar quando virar adulta. Que vai mostrar o dedo pra toda sociedade e viver a vida como bem entende. Dezessete é a idade. Tenho 17 há uns 5 anos.

Isso muitas vezes me incomoda, poucas vezes não. Porque chega uma hora que você precisa passar pro grupo dos crescidos, e não é só um rg que vai fazer isso acontecer, tem que fazer por merecer. E também não adianta sentar, cruzar os braços e falar “não vou, uhn, uhn, não quero não vou”, porque você está na esteirinha da vida, e essa danada não pára.

Já assistiu aqueles programas japoneses de gincanas (daqueles que o Silvio Santos tenta imitar), onde existe uma placa com um recorte num formato bizarro, e ela vai vindo na sua direção e se você não conseguir ficar na posição certa pra passar pelo buraco você cai numa piscina de líquidos estranhos e nojento que melhor nem perguntar o que é? Essa é a esteirinha da vida, a placa é o segurança da balada falando que você não pode entrar ou o empresario que está te entrevistando perguntando que habilidades você tem que vão convencer ele a te contratar. Atrás da plaquinha está o “OK, você pode entrar no grupinho dos crescidos”.

No momento eu estou sentada na esteirinha, começando a ser empurrada pra piscina estranha, achando que talvez, talvez seja uma boa hora pra conseguir um emprego, e talvez eu não deva gastar todo o salário em bala.

Não, gibi também não.