xx: acaso biológico, fardo social

Eu já tinha tentado rascunhar um texto sobre feminismo quando o Rotaroots divulgou os temas do mês, e ainda assim, esse demorou muito mais do que o esperado pra ser escrito. Primeiro pela imensidão de coisas que precisam ser discutidas, e eu nem sei por onde começar. Segundo pela imensidão de resposta dolorida que a gente sabe que vai ser obrigado a ouvir e tenta ao máximo evitar a explosão de ignorância que é jogada na sua cara quando você menos espera, da forma mais estúpida possível. Mas, provavelmente, principalmente por saber que eu não sei quase nada sobre o assunto, porque eu sei que ainda falta muito estudo meu, e porque o que ainda me resta a esclarecer sobre uma discussão que confunde até quem se diz feminista?

Eu que já tive medo numa rua escura e deserta, eu que já tive mais medo ainda numa rua escura enquanto um homem muito maior que eu passava do meu lado e me chamava de gostosa. Eu que já ouvi reclamação de namorado quando um amigo me ofereceu carona na volta da faculdade, que quase perdi a voz de tanto falar não pra alguém que deveria me respeitar, que ouvi “sua vadia”, da mesma boca que dizia “te amo”. Eu que já tive que me soltar de desconhecidos em baladas, que já vi careta de amiga porque falo muito palavrão e “não assim que princesas se comportam”. Eu, que diziam que algum dia ia apanhar de namorado por ser teimosa e bocuda. Eu que tive o tamanho dos peitos como tema de musiquinhas na escola. Eu que já me senti fraca, que senti vergonha do meu corpo.

O que eu tenho a acrescentar? Tudo. Porque me dá agonia ficar assistindo como se não me atingisse. Porque toda mulher, em algum grau e em vários momentos da vida sofreram agressões por serem mulheres, e muitas delas nem sabem disso. Tenho sim, vontade de gritar e de esticar o dedo na cara de quem, por não entender, por não fazer questão nenhuma de entender, diminui os medos que muitas ainda sentem.
É estressante falar sobre o assunto em época de bolsonaros, em um lugar que parece mais absurdo quando se pede respeito, do que quando um homem passa a mão em uma mulher na rua, mas sinto uma urgência em opinar e, felizmente, aqui eu posso me sentar confortavelmente, tirar meu sutiã e queimar ele em paz.

E para aqueles que chegaram até aqui, mas pretendem mostrar argumentos já conhecidos, aquelas questões que nenhuma feminista consegue responder, só que conseguem, segue que:

Feminismo não é a ideia de que as mulheres devem ser ociosas, e que os homens devem trabalhar para sustentar suas namoradas, feminismo não é argumento para embasar preguiça. Enquanto muita mulher luta pra poder ter espaço no mercado de trabalho, com direito a salários iguais aos dos homens de mesma função e formação, muitos outros reclamam que o feminismo quer fazer as mulheres pararem de trabalhar. Não, amigo. Não.

Feminismo não impõe que as mulheres batam nos homens. Nem que elas são melhores. Igualdade é a palavra e fim.

Homem pode ser feminista sim. Essa é nova pra mim: homem não pode ser feminista, homem já é naturalmente machista. Oxi! Homem pode e deve. Começamos pela ideia de que machismo não atinge apenas as mulheres, passamos pela questão de que feminismo é uma ideal e não uma classe social ou algo do tipo. Quem se identifica é, seja protagonista do cenário ou apenas alguém que apoia a luta. Alguém, por favor, me explique o problema na apropriação cultural, do discurso do privilégiado ou seja lá o que vocês acharem que se enquadra.

Feminicídio não é só uma lei em causa própria da presidente. É causa própria de toda mulher desse Brasilzão, que tenha ou não sofrido agressão por razão de gênero (que como já dito, certamente sofreu), e independente de ter votado na presidente ou não. Eu não preciso procurar dados na internet pra contar o tanto de mulher que é estuprada, morta, agredida física e moralmente por um homem que acha que detém direitos sobre uma mulher simplesmente por esta ser mulher (tenha assim nascido ou não). Antes que me perguntem se eu não acho que toda morte é errado, sim, eu acho. A lei também acha. Entretanto, quantos homens morrem por ser homens? quantos homens são vítimas de violência doméstica? Uma lei que torna mais rígida a punição por atos contra a mulher por razão de gênero não é vantagem em direitos para nós. A culpa é das estatísticas.

Se ainda parece absurdo que uma mulher seja também uma pessoa, se você está cansado de ouvir tanta gente falando sobre isso, se você acha que é tudo falta de uma pilha de louça pra lavar, pode se manifestar, tem problema não. Só não garanto que a vergonha vá ser pouca.

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motivando (do verbo explicar o motivo)

Ode/əʊd/ noun: 1. A lyric poem, typically one in the form of an address to a particular subject, written in varied or irregular metre. 2. A classical poem of a kind originally meant to be sung.
Awe.some /ˈɔːs(ə)m/ adjective: 1. Extremely impressive or daunting; inspiring awe. 2. informal. Extremely good; excellent. Awesomeness noun.
Oxford dictionary

Ode é um poema lírico originado na Grécia Antiga que se caracteriza pela forma sublime como trata alguém, algo, algum lugar, sendo sempre uma homenagem, uma expressão de admiração. Awesomeness é a palavra inglesa pra algo que podemos traduzir como “maravilhosidade”. É aquilo que é maravilhoso, que é admirável. Nenhum nome poderia ser melhor: o Ode to Awesomeness é a tentativa de homenagear o que eu admiro.

Sempre gostei dessa coisa de ter um lugar pra falar o que quiser, sobre o que quiser, do jeito que quiser, e ainda conhecer gente nova, opiniões novas, enfim. Acho que os blog resultaram numa grande mudança na forma das pessoas se expressarem, e eu andava muito com essa coceira de ter um. Voltar a ter um, na verdade. Acontece que às vezes a gente acha que precisa de um objetivo maior pra tudo e eu não sabia o que fazer de um blog. Pura frescura.

Parei de bobeira, assim, um dia, do nada mesmo. Percebi que eu sinto de falta de um lugar pra organizar as ideias, pra guardar as coisas que eu acho bonitas, pra explicar o que eu penso, e pra me ensinar que eu não preciso de motivos pra fazer alguma coisa que eu tenho vontade.

Mas você é tipo uma grande escritora, Ananda? Não. Então quer ser? Não também. Mas então você tem histórias maravilhosas pra contar? E quem não tem? E você vai só fingir que bloga ou vai ser dedicada e escrever frequentemente? Ai, mas que pressão! Posso só prometer que vou tentar, por enquanto? Tá, mas e eu? Posso voltar? Mas é claro e é mais que bem vindo! Mi blog es su blog.

| Este post foi uma motivação de Rotaroots