pop!

Eu sou aquele momento que você fala pros colegas no ultimo dia de aula “hein, vamos marcar de se encontrar, viu!” e vamos, vamos sim, mas a gente sabe que não. Eu sou aquele incomodo de quando te chamam pra ir lá ver aquele filme que você até está super afim de ver, mas que ai, o cinema tá tão longe, e tão caro, e depois eu vou, mas antes disso o filme vai sair de cartaz, você sabe.

Eu sou aquela falta de ar quando a estante está cheia de livros pra ler, e os prazos pra entrega dos trabalhos está chegando, e você recebe a mensagem de “chego em 10 minutos” mas você nem foi tomar banho ainda. Eu sou a preguiça do convite pra evento, e das notificações de lembrete, que pulam na tela dizendo que você ainda não confirmou a sua presença e os seus amigos querem saber, eles precisam saber se você vai, peloamordedeus, decide e avisa os seus amigos se você vai na porcaria do evento de uma vez por todas?

Eu sou aquela coceira que surge no meio da sola do pé logo que você se deita e lembra que não fez metade das coisas que colocou na agenda que ia fazer, e eu vou me espalhando por entre os dedos, e não importa o quando você esfregue um pé no outro, ou coce na pontinha do estrado da cama, eu não vou embora. Pelo contrário. Porque ir embora também é o tipo de coisa que eu não faço.

Eu sou 3 meses de textos não escritos, mas eu também sou uma vontade, Ah!, uma vontade tão grande de escrever, e de sair, e confirmar presenças e honrar confirmações de presenças, e pagar pelo ingresso, e marcar o encontro com a galera. E de aprender malabarismo, e fazer o curso de sobrevivência na selva, e desenhar, e bordar, e escrever, senhor, eu preciso escrever!

Eu sou uma grande criatura construída de vontade, e sobrevivo de pequenas momentos de atitude.

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Dias estranhos

Dias como hoje são especificamente estranhos.

Dias como hoje são nostálgicos de tantas formas que desconcertam o coração. São frios como a época que eu vivi a síndrome das noites terríveis, uma doença que talvez não exista e por isso eu mesma tive que dar o nome, e que se assemelha de uma certa forma com a depressão, fazendo as pessoas ficarem aterrorizadas com a incerteza do futuro próximo que é o amanhã, e tem dois sintomas muito claros: uma agonia crônica, que aumenta conforme os minutos se aproximam da escuridão do fim do dia, que faz você perceber que mora dentro de um espiral sem fim de dias e noites; e uma ansiedade angustiante pelo momento do topo da onda chegar, porque apesar de saber que vai chegar, você não pode fazer nada pra apressar as coisas. É como respirar quando o inspirar é profundo e macio e tranquilo, e o expirar seja sufocante e doído. Tudo o que você quer é que os dias existam sem que o tempo passe e seja sempre aquela hora da tarde em que você chega da escola e pode fazer o quiser antes de ter que tomar banho e jantar, antes do terror aparecer, antes de você se prometer que hoje vai ser diferente e hoje você vai suportar porque você sabe que todos os dias são assim e no fim tudo fica bem – mas não fica. Dias como hoje me dão vontade de pegar a criança que eu fui no colo, e abraçar tão apertado que nenhuma de nós ia ter que pensar em alguma coisa.

Mas ainda assim, durante as tardes e as noites em que tudo estava bem, e as manhãs e boa parte do tempo todo, eu provavelmente estava com a cara em algum livro, ou com a cabeça em outro lugar. Crianças têm a vantagem de não serem obrigadas a viver na realidade, e dias como hoje me fazem lembrar do deserto colorido da História Sem Fim, e do Beco Diagonal, e dos irmãos Baudelaire, e da Sininho, que é tão pequena que é incapaz de sentir duas coisas ao mesmo tempo, e então eu acho que devo ser grande demais, porque o calor do Sol de dias como o de hoje me deixam contente. Ainda que triste. Ainda que esteja frio. Ainda que esteja calor.

Ainda que eu não entenda nada de como dias como hoje são tão capazes de interferir no meu humor, é em dias como hoje que, invariavelmente, eu tenho vontade de estar nesse mundo, e fazer alguma coisa, e escrever o que eu sou, e ser todos os dias assim, inspirada.

vê aqui que ideia gostosa

a sinestesia é a capacidade de perceber diversos sentidos de forma fundida. o sinestésico é capaz de sentir gosto de cores, ou o cheiro de sons, ou a textura de imagens. essa condição que, aparentemente, é uma mutação genética, acontece porque os neurônios se hiperconectam ou algo do tipo, não sei exatamente.

o dois é amarelo, sabe? isso não é voluntário. todo dois vai ser amarelo, independentemente de onde ele estiver ou o que mais seguir ele. o zero, que não é nada a não ser que esteja acompanhado, logica e justamente é furta-cor, sendo o 300 um degradê de azul, o 70 laranja, assim como o 7 sozinho, e o 42950 um belo arco-íris.

eu não preciso me esforçar pra escrever isso, nem estou sob efeito de drogas, número são coloridos e fim, isso é óbvio. assim como algumas fotos de infância são quentinhas e macias tanto quanto um bolinho de chuva. algumas músicas tem a lembrança de uma casinha branca com muro de madeira e plantas no quintal, de um dia que eu nunca vivi, mas que estava usando um vestido azul claro esvoaçante, porque mesmo que estivesse calor, ventava, como se já já fosse chover, o que seria ideal pra ficar dentro de casa lendo um livro.

seguindo o fluxo dessa ideia maluca da mesma forma que o youtube relaciona videos que mais ou menos tem ligação, a individualidade das percepções de mundo virou uma pauta muito recente nas minhas reflexões diárias. indo além do insight de que algumas pessoas enxergam sons, outras ouvem sabores, e pode ter alguém que seja tocado por um cheiro, sacamos que ninguém percebe o mundo do mesmo jeito. já passamos, provavelmente, pela ideia de que o vermelho que eu vejo não é o mesmo vermelho que você vê, porque as cores só existem dentro da nossa cabeça, então será que é possível explicar pra um daltônico a diferença entre azul e verde?

ou será que é possível um cego realmente entender o que é o racismo se ele nunca viu tons de pele? será que um surdo sente a mesma angústia quando o desenho que ele está assistindo é interrompido pelo Plantão da Globo se ele não ouve aquela musiquinha horrível, ou medo quando um trovão acontece muito perto? e no fim, quando foi que começamos a considerar normal ou aceitável tratar essas condições como deficiência?

outro dia acabou a luz na rua e deve ter sido o maior intervalo de tempo em que eu não enxergava absolutamente nada e eu achei engraçado o fato de algumas pessoas terem se incomodado quando resolvi pintar meu cabelo de rosa, e acho que nesse momento eu percebi como perdemos tanto tempo tendo dó de pessoas pelas limitações físicas delas porque achamos que nós somos perfeitamente desenvolvidos, e que a forma como percebemos o mundo é mais certa, sendo que… não tem certo.

sério, gente, se conseguíssemos ver o mundo do lado de fora do corpo de um humano, nada disso ia ser igual, teríamos só um monte de molécula se debatendo, sem cor, sem cheiro, sem som, sem sabor.

e somos tão apegados à nossa forma de entender as coisas só porque ela mais comum, que ensinamos fórmulas pra acharmos a velocidade com que um corpo cai de um prédio antes de ensinarmos pras pessoas os sinais básicos de comunicação com surdos, ou a escrever em braile, ou como ajudar o amigo autista quando ele fica muito mal com alguma coisa.

e as pessoas ainda me perguntam por que eu to aprendendo libras.

um minuto

Eu vim ficar em silêncio pra dizer o que sempre quis gritar.
Eu tenho medo de não sentir nada um dia – pelo bem da ignorância que nunca deixa ninguém de luto, nunca revolta e nunca machuca. Eu tenho medo de não me importar e ainda assim, ultimamente eu evito ver o sangue e a lama, porque o silêncio da morte grita a voz da ganancia. E eu não sei o que fazer pra salvar todo mundo. O dinheiro e as armas serão sempre maiores que a empatia? Eu tenho medo do quão errada eu provavelmente estou, do quão egoísta e preconceituosa eu sou, do quanto não estou fazendo e pensando, e falando, e vendo e vivendo.

Eu tenho medo da religião. Eu tenho medo do dinheiro.

Eu tenho medo do poder, e de quem acha que tem ele.

Eu ❤ Pseudociência

Nos últimos dias o tema foi tão persistente que se fez necessário comentar, por questão de organização mental.

Das coisas inventadas pelo homem, eu confesso que a ciência é uma das mais incríveis, em seus dois possíveis significados.

Que ela é maravilhosa eu não discordo, mas foi-se o tempo em que eu acreditava que toda a verdade deveria ser encontrada dentro de um laboratório, e que tudo que se afirma verdadeiro sem seguir as regras da experimentação cientifica era perda de tempo.

Mas que não me falte nunca (mais) a capacidade de recorrer à filosofia, que como uma boa mãe, coloca sempre em teste suas filhas, e avisa que elas vão cair e se machucar, mas mesmo assim deixa as crianças subirem nas grades da janela, e apenas espera o tombo. Pra poder dizer que avisou. E porque é com calos que se aprende o conceito de cura.

Não vou descartar (longe de mim a hipocrisia) a alternativa de haver um ser superior criador do universo e das regras sociais, mas tenho minhas criticas à igreja formadas o suficiente pra não me permitirem escrever o nome da casa e o nome do proprietário com letras maiúsculas, nem de destacar como mais sincera e nobre a fé cristã (porque, de novo, longe de mim a hipocrisia). Me convém muito mais, entretanto, considerar outras formas de energia diferentes da que aprendemos na escola. O karma, a aura, a reencarnação, a alma, os chakras, vodum, destino, ka, astrologia. E não que eu tenha certeza absoluta que existe mais do que podemos ver e colocar num gráfico, ou que eu tenha medo de assumir que estamos largados num canto do Universo com uma mão na frente outra atrás. É mais por desacreditar na percepção humana, por dedução lógica mesmo. Quase como uma anti-ciência, que se usa dela para desconstruí-la.

Vamos pelo caminho da história da formiguinha que viveu a vida toda no deserto e não acredita que exista um oceano: Consideremos que vemos o máximo que nossos olhos permitem, e interpretamos o que vemos de acordo com tudo o que já conhecemos. Do que somos e conhecemos, tudo, e repito com toda a convicção, tudo! o é porque nós fizemos. Podemos ler porque criamos a escrita e cada letra que existe, e criamos a linguagem, e desenvolvemos a sociedade e as escolas e os livros que fazem com que todos os outros aprendam o que um dia surgiu de dentro do homem. Meus gatos só estão hoje deitados na minha cama porque partiu do ser humano domesticar outros animais e inventar o colchão. Os dinossauros, que estiveram aqui antes mesmo do primeiro Australopithecus, não fogem dessa regra, porque se hoje sabemos o que é o conceito de dinossauro, meteoro e extinção, é porque um dia, algum grupo de seres com capacidade de raciocínio lógico encontrou ossos enterrados e inferiu, diante todo o conhecimento que tinham antes de anatomia, geologia, tempo e decomposição, que aquilo talvez um dia tenha sido um ser mais ou menos diferente e enorme.

E se os dinossauros nunca foram parecido com o que desenhamos? E se eles nunca existiram de fato e o que encontraram era só pedra com um formato muito conveniente colocado na terra por algum duende só pra ver nossas caras de perplexidade? E se o tempo, na verdade não passa, afinal de contas tempo também é um conceito criado por nós pra explicar a sensação que temos de que as coisas acontecem em uma ordem imaterial determinada, que interfere nas mudanças físicas do que somos capazes de ver?

Se sabemos algumas limitações dos sentidos e conhecimentos humanos, pense agora nas limitações que não sabemos. É coisa de ser humano esse negocio de querer entender tudo, de perguntar os por quês, e respondemos nós mesmos a essas perguntas, cada um com o seu Abstrato, seja deus, a aura ou a matemática. Se de nenhum deles eu entendo, se nenhum deles eu vejo, se nenhum deles me prova, de acreditar com o coração, que alguma coisa é o que é, por que vou desmentir um e pregar a palavra de outro? A ciência não me prova mais do que a astrologia, porque não existia dois nem quatro antes da matemática. A ciência me prova sim, a capacidade humana de seguir um padrão de reconhecimento do nosso ambiente, desenvolvido e doutrinado, a todo momento por nós, enquanto a astrologia me prova, com toda sua ausência de padrões, que a verdade cientifica não é soberana, nem única, e que conhecermos o interior é tão complexo, necessário e perigoso do que conhecer o resto.

Como acreditar que não há vida fora do planeta Terra, se não sabemos definir nem a vida aqui dentro? Procuramos formas de vida como as que conhecemos aqui, mas e se existem outras formas? E se as outras formas de vida estão tentando se comunicar conosco em outra frequência de som, ou em qualquer outra coisa que eles usam pra se comunicar, que seja tão diferente da que nosso corpo limitado é capaz de sentir? E se eles estão agora tentando mandar um alô pro futuro e nós apenas não chegamos lá ainda?

Soa tão audacioso usar a palavra “verdade”, pelo significado que definimos pra ela, pra uma ou outra crença, porque se um livro escrito por pessoas pode contar o que pensava o maior acumulo de energia criador, como não acreditar que as regras postas por estudiosos para afirmar o que pode ou não ser considerado certo sem ser julgado como ignorante não é também tão correto? E se um é capaz de acreditar com o coração em equações, montadas e calculadas por uma ou duas pessoas, que descrever a posição dos astros, como não acreditar também com o coração, que esses astros definem perfeitamente quem você é, o que você será e o que você quer? Porque acreditar no gato de Schrödinger pra mim é tão plausível quanto acreditar em vidas passadas.

E em conclusão, porque todo esse pensamento tem me levado à um lugar, a importância da verdade cientifica é diferente mas não menor da verdade das pseudociências, crenças e afins, porque se uma nos faz entender o mundo em que vivemos e o corpo que somos, a outra nos conecta à eles, e nos permite experienciá-los – que se oponham, se contradigam e se odeiem, mas a experiência é a base das duas. Se me perguntarem, não acredito que o meu mapa astral me define mais do que o meu mapa genético, nem que eu seja apenas um ou outro. Não me entendo mais como um corpo ou como uma consciência porque sou inteiramente os dois, assim como passei a acreditar que o que está fora de mim também é os dois. Ou o que está fora de mim o é porque eu me sou. Ou é o que eu sou. Ou eu sou o que o mundo é. Mas por ora me parece coerente parar o pensamento em “Eu sou o que eu não sou” porque isso nos leva à muitas outras coisas que virão.

Namastê.

Pra quando desesperar

Assim que você se inscreve pro vestibular a sua alma está vendida, não tem jeito. Sabiamos que seria assim, já passamos por tudo isso, né, amiga. É. E por que? Se existem os livros, os passeios, o Netflix, o sono, por que se meter a fazer de novo algo que sabemos como dura -porque como termina é o de menos, terminar uma faculdade é ok, passar por ela é que é tenso- ?

Eu tenho me perguntado isso diariamente, ainda que diariamente eu me responda, e me convença e me faça todo o sentido. Não é a dúvida, nem a insegurança de ter feito a escolha errada, nem o medo do desconhecido. É a saudade de caprichos e o carinho por uma paixão idealizada mas sem provas concretas de durabilidade que me seguram.

E ainda assim, é a curiosidade, a vontade de entender e ver e conhecer, é a visualização de um caminho onde eu possa ter mais formas de materializar meu mundo ideal -o mínimo possível já me é suficiente. É a possibilidade de provar a tal paixão, de viver ela, de ser nada menos do que eu quero e posso ser que me libertam.

O formato de ensino que vivemos é ineficiente assim como a maioria das coisas que a sociedade criou, mas de qualquer forma me parece que preciso passar por ela de novo. Ele não é mais necessário e nem um pouco animador, mas tem seu valor simbólico e suas vantagens se considerarmos minha deficiência de pró ativismo pra assuntos acadêmicos. E como agora sabemos o que vem depois, ignoraremos o fim e aproveitaremos o meio, já que não é pelo diploma, mas pelos arrepios quando vejo vídeos de sementes brotando e de animais parindo, e pela dor que sinto com os vídeos de animais sendo maltratados, de florestas sendo destruídas. Por ter me desinteressado mais do que o oposto da primeira vez, e pra usar a teimosia como forma de redenção, como um pedido de desculpa a mim mesma por não ter feito o suficiente, ainda que o suficiente nunca será algo de valor conhecido. Por todo o fim de semestre de uma graduação em que eu sonhava com outra, e pra garantir que os desesperos sejam sempre impulso pra atingir alívios.

E pra que eu tenha realmente uma resposta toda vez que me perguntar se eu preciso mesmo fazer outra graduação, que fique aqui guardado uma vontade imensa de conhecer a vida – em todas as suas formas, em todos os seus níveis, e por todos os que sofrem as consequências de nosso desprezo por ela.

50 questions #7: Desculpas da vitalidade

7. Are you doing what you believe in, or are you settling for what you are doing?

Ainda que hoje eu estivesse deitada numa cama de hospital suspirando minhas ultimas cotas de ar por direito, não há um momento que me seria motivo de remorsos ou culpas. O que tenho de fazer por dever, tenho feito; O que tenho de fazer por amor não me escapa um dia do pensamento ainda que escape um poco das mãos. Nunca aceitei a ideia da sociedade controlando minhas paixões ou motivações. Não acho que valha a pena viver de acordo com os outros, ainda que eu saiba que os outros não sabem o que precisam, nem o que querem. Mas me controlo porque desconectar-me da sociedade é tão distante e assustador já que a solidão ainda é um grande monstro pra mim. Viver em companhia como é comum de minha espécie, ou deixar de ser controlada por regras subjetivas que são também comum de minha espécie ainda é um dilema pra mim. E entretanto quando o faço é por praticidade, já que as quebro todas em meus planos. Assim, se o que acredito é como uma sentença, e o meu contentamento significa a paz em conjunto, é impossível estar certa do erro. Sim e não vivo pelo que me faz querer viver, sim e não vivo pelo que me possibilita a sobrevivência.

Concluindo, ainda bem que eu tenho a juventude, que me permite fazer o que for com a certeza da coerência e a licença pela estupidez, porque se já fosse mais velha saberia o quão pequena sou e o quão mais forte posso ser. Saberia que por mais que fizesse, a vida inteira nunca me seria suficiente.