Marmita

Encontre um emprego onde você goste de dividir sua marmita com os colegas de trabalho.

Vá todo os dias para um lugar que, apesar do trânsito e do horário, da pressa e do salário, dos chefes e do cargo, você fique ansioso pela hora do almoço e por todo conforto que ela carrega; pela forma como, de repente, todos os problemas se resumem em torcer pra que ninguém tenha levado ovo pra esquentar no microondas do refeitório. Deixe seu estomago se apaixonar pelo almoço-janta de ontem. Mas principalmente, trabalhe com pessoas com quem você quer dividir esse momento, e a sua omelete; com quem você sabe que pode contar quando a comida estiver acabando mas a sua fome não – ou quando a fome estiver acabando e a comida não. Encontre pessoas que são capazes de serem o alívio cômico do dia-a-dia massante e se tornam tão importantes a ponto de você oferecer sua própria comida. Leve aquela torta que você sabe que a sua amiga adora, porque você sabe que ela coloca um pedaço a mais de lasanha pensando em você. Porque esse tipo de coisa mantém a humanidade dentro do espaço profissional.

Quanto à mim atualmente, eu ando preferindo almoçar jiló.

Anúncios

50 questions #7: Desculpas da vitalidade

7. Are you doing what you believe in, or are you settling for what you are doing?

Ainda que hoje eu estivesse deitada numa cama de hospital suspirando minhas ultimas cotas de ar por direito, não há um momento que me seria motivo de remorsos ou culpas. O que tenho de fazer por dever, tenho feito; O que tenho de fazer por amor não me escapa um dia do pensamento ainda que escape um poco das mãos. Nunca aceitei a ideia da sociedade controlando minhas paixões ou motivações. Não acho que valha a pena viver de acordo com os outros, ainda que eu saiba que os outros não sabem o que precisam, nem o que querem. Mas me controlo porque desconectar-me da sociedade é tão distante e assustador já que a solidão ainda é um grande monstro pra mim. Viver em companhia como é comum de minha espécie, ou deixar de ser controlada por regras subjetivas que são também comum de minha espécie ainda é um dilema pra mim. E entretanto quando o faço é por praticidade, já que as quebro todas em meus planos. Assim, se o que acredito é como uma sentença, e o meu contentamento significa a paz em conjunto, é impossível estar certa do erro. Sim e não vivo pelo que me faz querer viver, sim e não vivo pelo que me possibilita a sobrevivência.

Concluindo, ainda bem que eu tenho a juventude, que me permite fazer o que for com a certeza da coerência e a licença pela estupidez, porque se já fosse mais velha saberia o quão pequena sou e o quão mais forte posso ser. Saberia que por mais que fizesse, a vida inteira nunca me seria suficiente.

Minha mãe é uma ladra de canecas

Isso não é um testemunho legal e nem vale a preocupação. Minha mãe é quase uma pessoa inofensiva – se você não bagunçar a casa dela. Minha mãe é a definição de mãe, ela trabalha mais do que o necessário, cozinha melhor que o necessário, se preocupa mais que o necessário. Se me perguntassem qual o defeito de minha mãe, a educação me impediria de formular uma resposta, mas a verdade é que se ela vê alguma caneca bonitinha, ela terá essa caneca bonitinha. Ofende-se apenas quem não entende. O ato é quase um elogio à decoração do lugar, quase um “parabéns pelo bom gosto”, vira uma lembrança do agradável.

O hábito não caracteriza cleptomania, nem nada do tipo, tranquilize-se. Veja bem, minha mãe é uma pessoa de inúmeras qualidades, você pode até querer tê-la em sua casa para uma tarde de bate-papo. Só não ofereça um cafézinho.

Seres tu pois só a ti lhe cabe ser-te

Cansara da vida, simples assim. Olhava em volta e não gostava de mais nada daquilo. Aí resolveu que queria outra. Ideia boa essa! Foi até o reino das vidas, procurar pelo responsável pela situação. Encontrou uma senhora, já bem idosa, com rugas onde fosse possível, andar lento, fraco. Ironia do destino, ela pensou, mas esse era ainda outro reino, não seria então possível que fosse. Juntou toda coragem, falou com toda a certeza que tinha: “A vida que me deste, caríssima senhora, está de ponta a ponta equivocada. Mudai, lhe rogo!” e a senhorinha, que demonstrava em cada passo que dava, que sabia exatamente o que havia feito pois desde o primeiro dia de sua existência o fizera com esmero, mas tendo a pobre doninha lhe pedido com tanta firmeza, nada podia fazer pelo perdão da ignorância senão o que lhe era pedido. Mudou. Deu à moça uma vida novinha, do começo ao fim.

E foi assim que a pobrezinha descobriu que não sabia ser mais ninguém a não ser ela mesma. E que a vida sabe o que faz.

Submersa

Escorreu o corpo mais para baixo e deixou a água cobrir o seu rosto por completo. Por um momento ficou de olhos fechados, ouvindo o silêncio da água nos seus ouvidos, e sua mente pareceu se misturar ao fluido, tranquila, limpa, profunda. A água era pesada, e então ela se sentia leve. De repente estava no seu mundo, em um lugar completamente diferente da cidade doentia. Abriu os olhos e viu a materialização dos seus pensamentos: a realidade, distorcida, borrada; mas dentro da água, o brilho cego da luz refletindo, lindo. Amava esse ritual intenso de transição de mundos. Não sentia a falta do ar, não precisava dele. O ar seco doía a cada inspiração. Não, ela precisava da água entrando em seus pulmões, percorrendo as veias no lugar do sangue, encharcando e sustentando seu corpo. Este era o momento que saía da fragilidade que é a vida, e sentia a eternidade ao seu redor, e precisava dela.
Não a que está após a morte, não queria a morte.

Queria ser sereia.