Amor a gosto

Existe, a partir de agora, uma aura dourada ao meu redor que filtra a energias, repelindo impurezas físicas e espirituais. Existe um escudo contra a imoralidade e a desumanidade natural da civilização, e contra negatividade de karmas transpassantes. Meu corpo está fechado, meu coração está aberto. Como é de se esperar em agosto, a vida é boa.

Existe uma demanda de inspiração incontrolável que me faz acreditar ser dona do mundo – ou da minha própria vida, que é mais ou menos a mesma coisa. Eu quero desafios, poesia e harmonia, quero uma arte pra qualquer razão, quero comprovar que a minha vontade é maior que qualquer destino ou regra.

Talvez mais ousado do que qualquer coisa, eu quero me escrever, me desenhar, me bordar, me cantar toda. Não vou dizer que vou participar do BEDA porque é preciso ter cuidado com as paixões e as promessas não condizem com o improviso do agora. Não vou dizer que estarei em estado perfeito de mindfulness porque ele me impede do orgulho do passado e da expectativa confortadora.

Não esperem nada.

Apenas a deliciosa soberania de Agosto.

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The boy who lived (ou sobre reviveres)

Este é um post para se ler ao som de Hedwig’s Theme

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Das coisas de infância de a gente lembra com carinho, uma, certamente clara, é a do momento que abri o primeiro livro da série Harry Potter, numa época em que nem o 4º livro existia ainda, li a primeira frase e parei. Eu estava no meu quarto e tive que descer as escadas, ir até a cozinha e perguntar pra minha mãe, “Mãe, porque aqui tá agradecendo que o Senhor e a Senhora Dursley gostavam de ser normais?”. A primeira coisa que eu aprendi com Harry Potter (que na verdade a mãe que explicou) é que “muito bem, obrigada” é só um jeito de falar e que eu não devia me preocupar com isso e continuar lendo. Eu continuei. E não preciso nem dizer que a partir daquele momento eu fui, sou e sempre serei, uma Potterhead.

Algumas obras passam a fazer tanto parte de você e a gente mal sabe, mas Harry Potter tem pra mim, e tem pra muita gente (um beijo no coração de todos vocês que entendem), uma grande parcela de influencia sobre o que sou. Tantas crianças que aprenderam a gostar de ler, e tantas pessoas que se identificaram com tantos personagens de alguma forma, e tanta gente que aprendeu a encontrar a luz na escuridão e se inspirou em algum momento, e tantos outros se encontraram em um mundo que ninguém te perguntou se é verdadeiro ou não porque não importa, Hogwarts vai ser sempre o melhor lugar do mundo. E não importa onde você esteja, enquanto tiver alguém que gosta tanto quanto você da história (e não é difícil encontrar) você terá um amigo.

Os filmes eu sei de cor, mas precisava ler de novo os livros. É que não seria a mesma coisa, reviver uma história que já se sabe o final, conhecer de novo personagens que já viu morrer, entender metáforas e situações que antes você ignorou e que talvez mude muito a forma de você perceber a história. E se não for tão mágico assim? Eis que depois de, o que?, 10 anos, muita enrolação, e vários tweets lindos da tia Jo, chegou o dia em que nada parecia mais certo do que abrir o livro pela segunda vez e voltar aos meus 9 anos de idade. E já estou rindo a cada frase igual uma garotinha rica contando suas bonecas. Em outro tipo de livro, em outro idioma, em outra eu, é diferente mas é igualzinho.

Pois então esperem por muitos posts meio-mágicos-meio-trouxas, surgindo entre um capítulo e outro se eu conseguir largar um pouco o livro, muito bem, obrigada.

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Ok, você e a galera entram numa sala estranha pela primeira vez pelo motivo mais simpático que pode existir, ninguém queria encrenca nenhuma, mas o mundo não é legal com os de bom coração e quando você pensa ‘é talvez a gente devesse sair daqui, galera, que tal?’ a porta vai fechando com um rangido agudo e bate fazendo vocês perceberem que estão trancados e a unica coisa que pode acontecer a seguir é: dar ruim. Tudo bem, tudo sob controle, você é uma pessoa esperta, calculista, vocês vão sair dessa antes do vizinho que talvez seja um psicopata voltar, e olha só, talvez ele nem seja tão psicopata assim. É só mantar a calma, avisar todo mundo pra manter a calma e talvez dar um tapa na pessoa que está choramingando – quer dizer, talvez seja você mesmo que esteja. Pensa, gente, como qualquer lugar assustador, a saída esta exatamente aqui dentro, afinal de contas que ladrão não deixa um lembrete da senha da porta do cofre dentro do próprio cofre? e que maníaco não esconde as chaves embaixo do tapete com um pequeno detalhe que lembre ele de qual cofre mesmo é aquela chave? Que assassino não deixa um controle reserva da porta de casa dentro de uma caixinha escondida no taco falso do piso? Só o que vocês precisam fazer é encontrar isso em menos de uma hora e voltar às suas vidas normais como se essa não tivesse sido a maior burrada do mundo. E também tem a chance do vizinho não ser tão psicopata assim.

Nos meus tempos de menina, que eu passava várias horas solitárias em casa, eu tinha esse certo vício em jogos de escape. Eles te faziam instalar uns java flash sei lá o que e, geralmente, eram bem feinhos, que você se perguntava ‘sério, quem decoraria uma sala desse jeito?’. Eles te faziam adquirir a síndrome do clique frenético, ansiedade e medo de espelhos, mas por outro lado você aprendia a esconder qualquer coisa num vaso de planta, com a segurança de que essa coisa só seria encontrada quando a planta fosse regada. Você aprendia códigos, aprendia a fazer uma chave de fenda com uma régua, aprendia a transformar um ventilador em um helicóptero e a fugir de uma ilha dentro do papo de um pelicano. Você era basicamente invencível.

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E por isso eu sempre vi essas horas que passei jogando mais como um investimento, sabe? Porque as garotas da minha idade podiam até beijar na boca, mas essa é uma habilidade que não serviria de nada se alguém prendesse elas na masmorra de um castelo, né mesm?

Hoje eu sei que os jogos de escape online me prepararam para um momento de extrema importância na minha vida, algo que somente vivendo para entender que tudo não era apenas um capricho, mas um aprendizado para a vida: os Jogos de Escape de Vida Real! (imaginem um letreiro piscando com tambores ressoando ao fundo).

Como tudo o que a internet tem de bom a natureza copia, agora temos emoção em tamanho real. Hoje eu entendo as pessoas que brincam de tetris humano, e se vestem de Mario, porque hoje eu lembro de quando eu era pirralha e pensava ‘imagina só que loco se eu tivesse trancada numa sala’ e rio risadas humoradas de alegria porque eu sei que loco seria se eu tivesse trancada numa sala. Hoje eu digo pra vocês, crianças, uma das coisas mais tocantes da vida é o ‘clic’ do cadeado abrindo com aquela senha impossível.

E olha que hoje em dia eu beijo na boca.

The Glad Man Singing

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Era algum dia aleatório de 2010 talvez, quando eu ouvi Iron & Wine pela primeira vez, no tumblr (claro!). Foi a Margarida, uma portuguesa fofa, que me comunicou a existência dele. Obrigada, Margarida, esteja onde estiver.

Era um dia aleatório de julho de 2015, quando uma imagem me abraçou, dizendo que o Sam Beam ia vir pra São Paulo tocar umas musiquinhas bacanas pra galera. Aquele foi um dia diferente. Eu não precisei e nem tentei pensar antes de clicar no link pra comprar o ingresso. Olha que se tivesse sido uns meses atrás, eu teria apenas chorado por não ter condi$$ões. Obrigada a quem fez ele vir na época certa.

Eu não sou entendedora de música, não faço ideia do que é qualidade musical pra quem é entendedor de música. Pra mim música boa é musica que tá presente de alguma forma, e meujesusinho, como estas estiveram. Eu tive que aprender a dormir de fone de ouvido sem me matar enforcada porque a voz do Sam é a melhor canção de ninar. E eu não sei como isso não é de conhecimento geral da nação, eu só sei que das pessoas que eu conheço que conhecem ele, me acompanharam um total de 0 (zero). Olha que se tivesse sido umas eu atrás, eu teria apenas reclamado sozinha em casa durante o show todo por não ter tido companhia. Eu quase o fiz, na verdade, e essa talvez seja a questão de estarmos aqui contando essa historia toda. Eu quase voltei pra casa, sem ver as barbas do rei, porque eu estava cansada, porque eu estava com frio, porque ia ficar tarde, porque eu estava sozinha. Mas se tem alguém que sabe como eu sou chata, esse alguém sou eu, e poucas coisas me deixam mais chata do que auto-frustração. O tanto de coisa que eu já deixei de fazer porque não gosto de estar sozinha dá pra encher uma caçamba. E sabe o que eu acho? Que isso tá é muito errado. Que eu tô é na hora de aprender a ir lá e fazer as coisa, oxi. Que só eu sei como seria maravilhoso ver pessoalmente alguém que me deu minutinhos selecionados de alegria toda vez que eu precisava de um cobertor de coração. Eu só percebi agora, nesse exato momento, que essas músicas fazem eu amar a vida, mesmo se eu estou sozinha ou qualquer outra coisa que eu não goste de estar. Vai ver foi isso, porque, do jeitinho que a gente faz uma coisa por obrigação, eu fui. E agora o tanto de coisa que eu me orgulho de ter feito por mim mesma, da pra encher uma taça de vinho. Obrigada a mim mesma, pela teimosia.

Entendam da forma mais poética possível a frase disléxica e redundante a seguir: Só quando eu cheguei, eu realmente estava lá. Não tem como reformular isso. Estar lá fez sentido, porque mais uma vez, era daquilo que eu precisava. Do que me faz querer a vida dura e embriagante, do que me emociona de estar aqui. Daquele carinho que eu pude constatar ser inteiro: voz, violão e sorriso. De saber que o amor é uma coisa que merece ser vivido e cantando, e que ás vezes ele acaba, acontece, não tem problema, é a vida. De aprender a ver as poesias e histórias das coisas que parecem simples aqui embaixo, porque tudo é perfeito visto de longe, lá de cima, e que descer é bobeira.

Pela palheta, pelo “I love you too”, pelo prazer e por Such Great Heights, thank you.

“It was for you.”

Fica, ainda tem bolo.

Pois bem, esse ano eu enfiei na cabeça, como se fosse a coisa mais obvia do mundo, que Agosto seria o melhor mês de todos os meses, com uma justificativa simples e direta no coração: Por que não seria?
E foi por isso que no 1o e nos seguintes, eu desejei a quem ouvisse ou a quem não desse a mínima um Feliz Agosto.

No meu coração e na minha cabeça que nem sempre cria coisas baseando-se na razão, eu proibi o mês de trazer qualquer coisa que fosse ruim, que fosse tristeza.
E foi assim que eu descolei um trampo que tem de tudo pra ser divertido, foi assim que eu tive uma hora de almoço romântico no boteco com o namorado todos os dias e a gente podia descansar e desabafar todos os stress da vida trabalhadora e falar algumas bobagens, foi assim que eu aniversariei um aniversário cheio de abraço e risada e gente que eu nem imaginava, foi assim que a gente deu um pulo na praia mesmo que o sol não tenha ido com a gente.

Agosto é oficialmente o mês do amor de agora até toda eternidade porque eu tenho essa mania que ninguém sabe de insistir em achar um lado positivo nas coisas. E talvez Agosto tenha me ensinado a insistir em acreditar na força das nossas energias, afinal de contas, eu quero ver quem vai vir aqui me provar que o fato de eu querer alguma coisa com tanta vontade não é crucial pra que essa coisa me venha um dia, e que o Universo não trabalha com mais força por minha causa.

Agosto foi maravilhoso porque eu permiti e quis que Agosto fosse maravilhoso, e perigoso que eu saiba disso, porque eu não aceito mais um dia que não seja. E sendo assim, apesar de reservar o trono pra este, que Setembro e o resto do ano seja (quase) tão maravilhoso quanto os últimos 31 dias, no quanto for permitido aos que estão abaixo do topo ser.

E pra todos nós, um Feliz Pós Agosto.

Ode às pequenas coisas

Ao cobertor na cabeça e os mais 5 minutinhos na cama,
Ao sol quente de manhã no caminho até o metrô,
Aos sábados de preguiça, sem tarefas urgentes,
Ao café já pronto todos os dias quando você levanta,
Às mensagens de bom dia e emoticons de solzinho
que mostram que ele pensa em você logo de manhã cedo.
Ao alívio de chegar ao interruptor durante a noite
e estar tudo tranquilo sem nenhum monstro.
À respiração calma do gatinho dormindo no colo
e ao ronronar dele pedindo carinho.
Ao instante que a água quente do chuveiro bate no corpo frio
e você não quer nunca mais sair do banho.
Ao convite pruma cerveja durante a semana,
Ao carteiro com encomenda na porta,
Ao peso do livro aberto nas mãos,
mesmo que estejamos nos equilibrando no ônibus.
A não ter que se preocupar com a roupa que vai vestir,
Ao beijo no pescoço, no ombro, na testa, na boca,
Ao abraço inesperado,
Ao cafuné.
Ao beijo de boa noite na mãe, com cheirinho de creme,
Às rimas que não foram planejadas,
Ao “lembrei de você” e ao “que saudade!”
Aos chocolates de surpresa,
Às fotos que entenderam muito bem o momento,
À primeira cena de um filme no cinema.
Ao “bem vindo” e ao “qualquer coisa me chama”.
À todos os pequenos momentos de alegria (quase) despercebidos,
que são a resposta mais pura quando a gente se pergunta
“Por que estamos nesse mundo?”