As crises de Julia

Eu to com uma lista de livros que eu quero ler urgentemente desse tamanho. É só eu começar a ler qualquer coisa que essa lista aumenta. São clássicos, livros de estudo, livros importantíssimos, livros indicados por pessoas importantíssimas e livros com nomes que soam muito bem quando você diz que leu. E é só eu acabar de ler qualquer coisa que essa lista some. Todos os itens dela se escondem em qualquer canto do meu cérebro e eu fico passando as páginas do Kindle pensando ‘qual era mesmo aquele livro que eu ia ler?’ até encontrar qualquer coisa que não estava na lista e me perder.

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Eu tava num momento desse de “qual era mesmo aquele livro que eu ia ler?” quando me esbarrei no livro da JoutJout (ceis conhecem, não precisa apresentar, né?). Ih, é mesmo, eu nem sei do que se trata, deixa eu dar uma olhadinha aqui rapidinho só pra ver como é que é enquanto eu lembro qual era aquele outro livro lá.

Não é que eu duvidava da escrita da menina nem nada, mas é que aquela outra lista ta sempre tão grande e é sempre prioridade, então algumas coisas têm que ficar pra depois, ué. Mas foi que eu li rapidinho o primeiro capitulo aqui só pra ver com é que era, e depois eu engoli o livro inteiro como se fosse torta de limão (eu amo torta de limão).

Julia, por favor, me perdoa! Eu li seu livro pelo kindle. Eu baixei ele gratuitamente, nem sei se é um ato que condiz com a legislação do país, mas eu imagino que você tenha deixado de ganhar umas graninhas por minha causa. Justo a graninha que cê ia juntar pra pagar a Netflix do mês que vem, que eu sei que você gosta tanto. Foi mal, eu não pretendia fazer isso, mas juro que foi na melhor das intenções. Eu simplesmente não consegui parar de ler! Até pensei em comprar o livro, talvez eu ainda o faça, talvez eu só te envie o valor do livro pelo correio, talvez eu perceba que eu não tenho nenhum dinheiro e tente ficar em paz por ter lido seu livro de graça.

O que eu quero dizer é só que valeu a pena. Talvez o livro nem rende uma cadeira de imortal, ou Jabuti, ou etc, mas Julia tem essa coisa de futucar nossos corações. Tocar não, tocar é muito delicado, muito sutil e sensível, muito correto e suave, possivelmente intencional. O que JoutJout tem feito ha um tempo, no youtube e no papel, é chamar você e dizer “vem cá, xo te contar uma desgracinha que aconteceu aqui comigo pra gente rir junto da maluquice que é viver e depois ver umas series em paz”. E,como quem não quer nada, assim ela faz você entender que as coisas bizarras e complicadas vão aparecer, e o melhor que a gente tem a fazer é um draminha. E depois deixar passar, porque a fila anda e tem mais drama querendo ser feito, então bora. Julia não nos aconchega em um colo quentinho, cheio de palavras doces sussurradas ao ouvido; ela é mais aquela criança que vai puxar o band-aid do seu braço pra ver o seu ralado que já virou uma casquinha mole porque faz uma semana que aquela porquice ta grudada no seu braço porque você tava com medo de tirar, e depois rir com você porque no fim nem doeu arrancar o band-aid e você tava ai com medinho, que bobeira.

Pois bem, me chacoalhei de rir no metrô algumas vezes, pessoas me olharam estranho, deixei meus pés me arrastarem pelo caminho até o trabalho por 5 dias enquanto eu lia só mais 17 páginas andando (ler parado é para os fracos), e no ultimo ponto final já estava imaginando algumas viagens pela Europa, desistido da segunda graduação, me livrado de algumas crises, arrumado várias outras, e me perguntava profundamente “mas que tanto de série essa menina encontra pra assistir, deus?”.

Tudo isso e eu tive coragem de ler em ebook.

50 questions #9 e um buquê de rosas

9. Em que nível você tem, de fato, controlado a sua vida?
Esse post está pronto na minha cabeça há algum tempo, e uma força sobrenatural o prendeu até o dia de hoje, o Dia Oficial do Textão. E pra homenagear todas as cabeças pensantes, estamos de volta com mais uma resposta filosófica, esclarecendo como a vida funciona.

Por algum tempo, que equivale a praticamente minha vida toda, eu tinha na mente que quem cuida da minha vida sou eu. Que estamos aqui apenas uma vez, então devemos fazer o que temos vontade, do jeito que queremos e tudo mais.

Recentemente eu aprendi que não é bem assim, porque eu percebi que nasci mulher. É claro que nascer mulher não é problema nenhum-muito-pelo-contrário. Acontece que eu nasci mulher num mundo de homens, e isso significa que eu não posso fazer uma lista considerável de coisas que eu gostaria, tipo me sentir segura.

Eu nasci menina num mundo em que mulheres não podem viajar sem a companhia de um ser superior-homem, e que são estupradas, e que são mortas, e que são submissas, e que são assediadas diariamente. Eu nasci escancarada num mundo em que meninas têm que sentar de perninha fechada, e nasci com calor num mundo em que menina tem que usar roupa comprida pra não chamar atenção na rua, e nasci dondoca num mundo onde as meninas têm que arrumar a casa e a comida e as roupas do marido. Eu nasci nervosinha demais em um mundo onde as mulheres têm que ficar quietas, e sem um pingo de paciência num mundo em que garotas devem sorrir e rir das piadas dos rapazes pra que eles se sintam no controle da situação.

Eu nasci num mundo em que se uma mulher é independente ela é chamada primeiro de bruxa e daí é queimada, depois de rebelde e daí é presa, depois de louca e daí é internada, depois de feminista e daí é espancada. Eu nasci escandalosa em um mundo onde, se eu quiser alguma coisa, eu vou precisar fazer um escândalo, e se eu não preciso fazer é porque alguma outra louca já fez por mim.

Eu nasci num mundo onde chamam o maior grupo de minoria, e a “maioria” que tem tantos pré-requisitos pra se existir, é capaz de controlar a minha vida em, talvez, todos os seus aspectos.

E por mais feio que seja, poderia ser pior. Eu poderia ter nascido extremamente pobre num mundo de ricos, eu poderia ter nascido negra num mundo de brancos, eu poderia ter nascido gay num mundo de héteros, ou trans num mundo cis, e tudo seria muito mais difícil do que já é.

Mas dói mesmo assim, porque eu nasci empática num mundo de ignorâncias e egoísmos.

Um brinde

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Outra coisa maravilhosa que chegou na minha vida durante o mês de reis e rainhas foi o tal do coletor menstrual. Você já deve ter visto alguma coisa sobre isso em algum lugar: É um copinho de silicone que você coloca dentro do canal vaginal e ele… coleta a menstruação! Ai, que complexo.

Se alguém quer saber, eu diria que o copinho muda vidas. A ideia é daquelas que você procura, cavuca, revira, e não encontra um ponto negativo. Não tem!
Primeiro que ele funciona de uma forma muito simples e óbvia, e pra quem não sabe muito bem como funciona aqui vai um pequeno tutorial bem básico (pelamordadeusa pesquisem quaisquer dúvidas que vocês tenham antes de tentar usar, pode perguntar pra mim, procurar no google, no grupo do facebook, no youtube, mas num vai enfiando o negócio assim antes de saber tudo o que precisa saber): O coletor é de silicone e, portanto, bem maleável. Você dobra ele pra ficar menorzinho, e o introduz tal qual um absorvente interno. Quando estiver bem posicionado, ele se abre, ficando de novo no formato de copinho e coletando a menstruação (que percebemos ser um pouco diferente do que a gente imagina, principalmente nos quesitos quantidade e cheiro). Pode ficar com ele direto por até 12h, e precisa tomar cuidado pra não esquecer que está usando, já que você nem sente ele dentro do corpo. Na hora de esvaziar, você tira, joga uma aguinha e coloca de novo. Antes e depois de todos os ciclos é preciso esterilizar o bonitinho, pra evitar qualquer bactéria, o que da pra ser feito numa panelinha de ágata que você vai usar só pra isso.
Segundo que com ele, você não vai mais gerar uma tonelada de lixo por mês com absorventes descartáveis, e gente, pensa no quanto cada mulher produz de lixo com essas birosca!, sem falar que vai saber o que tem de químico – mas a gente sabe que tem – nele. Consideremos a economia também. Apesar do coletor ser mais caro que um pacote de absorvente, ele dura até uns 10 anos, e 10 anos sem comprar absorvente descartável é uma bela graninha;
Terceiro porque é limpo, e você não é obrigada a ficar com seu sangue coletado em contato com o seu corpo o dia todo como acontece com os absorventes externos, nem tem perigo de vazar (sem você coloca direito, prestenção!) igual o interno;
Mas principalmente, pelo que ele faz com a sua aceitação. Por causa dele, eu tenho falado bastante de sangue, logo eu que nunca gostei dele. Logo nós. Estou aprendendo que não tem nada de errado com ele, ou comigo. Tenho conversado com pessoas que eu conheço e que eu não conheço sobre menstruação e feminilidade. Temos notado algumas coisas estranhas.

Durante séculos desenvolvemos uma cultura de nojo do nosso próprio corpo. Rejeitamos algo natural que acontece com todas, o tempo todo e não é menos do que normal e saudável. A mulher odeia menstruar. Odeia o sangue, odeia o cheiro do sangue, a quantidade de sangue. Odeia sentir dor, odeia sentir raiva, stress. Odeia chorar por nada, odeia olhar no espelho e ter vergonha. A mulher se odeia. Tem medo de manchar, de vazar, de marcar a roupa. Por muito tempo eu tinha vergonha de ir até a perfumaria comprar absorvente, tinha vergonha que desse pra ver o pacote dentro da sacola na rua, tinha vergonha o caminho todo entre a minha carteira e o banheiro quando precisava me trocar na escola, e ficava enfiando o negocio dentro da manga, afundando no bolso da calça – eu e mais um monte de garotas.

Apelidamos o momento de “Piores Dias”, “Aqueles Dias”, e ouvimos isso até nas propagandas, que mostram como você só vai se sentir bem durante a menstruação se usarem a marca X. Cólicas e TPM então, viraram desculpa para muitos (e muitas) – apesar de eu achar que isso é também fruto de falta de contato com você mesma, considero um desaforo esses momentos serem tratado com tanto desdém, ou virarem justificativa pra relevar uma opinião ou atitude. Porque não, meusamor. Você vai se sentir bem durante o mês todo, não tem motivo pra não se sentir.

Ainda em tempo, tava ai nas internets esses dias, a noticia da menina Kiran que correu uma maratona inteira menstruada e sem usar absorvente, como um protesto pra que as mulheres deixem de ter vergonha e esconder a menstruação, e pelas mulheres que não tem acesso aos produtos básicos de higiene feminina. É claro que vi a noticia em vários sites, e os textos e motivos eram muitos e contradizentes, mas os comentários, a reação é sempre a mesma. Homens e mulheres também (o que mais dói), criticando, xingando e atacando a atitude de Kiran. Diminuindo o protesto, comparando a menstruação com outros fluídos e reações naturais do corpo. O que prova mais uma vez a importância de falar, de se conhecer, de se aceitar. E às vezes eu acho que falta tanto amor para com o próximo no mundo, porque ainda falta muito amor próprio. A mim, eu tenho cada vez mais e ainda falta, porque se tem coisa que não chega nunca é o amor.

Então levantem seus copinhos e brindem comigo: Ao sangue, à si e aos outros, amor!

Peitos

Finalmente lembrei de colocar o banner do Think Olga aí do lado.
Finalmente entendi que não tem nada de errado com a minha roupa, nem em me sentir ofendida se um desconhecido passa de carro mandando beijo pra mim.
Finalmente estou aprendendo a amar meu corpo do jeito que ele é, sem sentir a necessidade de torná-lo o que acham que ele devia ser.
Finalmente tomei coragem de pintar meu cabelo de rosa simplesmente porque sim, e apesar de estar me cagando de medo dos possíveis e misteriosos resultados, ninguém tem nada a ver com isso.
Finalmente abri mão do sutiã, já que eu realmente não preciso dele. Não queimei, porque não precisa. Deixei guardado na gaveta porque adoro a sensação de abri-la de manhã e não pegar ele.

Finalmente, hoje reconheço que meus heróis são, em sua grande maioria, heroínas. Percebi depois que, finalmente, vi o video da Amanda Palmer (que já é toda maravilhosa) colocando uma cambada de gente no seu devido lugar.


Vi aqui, tem a história toda 🙂

Falem o que quiserem, o tal do feminismo me libertou. De mim, dos homens, da sociedade e das peças de roupa desnecessárias. E eu recomendo isso a todas. A todos, aliás, recomendo que tirem as algemas, as ferraduras, as vendas e os sutiãs.

xx: acaso biológico, fardo social

Eu já tinha tentado rascunhar um texto sobre feminismo quando o Rotaroots divulgou os temas do mês, e ainda assim, esse demorou muito mais do que o esperado pra ser escrito. Primeiro pela imensidão de coisas que precisam ser discutidas, e eu nem sei por onde começar. Segundo pela imensidão de resposta dolorida que a gente sabe que vai ser obrigado a ouvir e tenta ao máximo evitar a explosão de ignorância que é jogada na sua cara quando você menos espera, da forma mais estúpida possível. Mas, provavelmente, principalmente por saber que eu não sei quase nada sobre o assunto, porque eu sei que ainda falta muito estudo meu, e porque o que ainda me resta a esclarecer sobre uma discussão que confunde até quem se diz feminista?

Eu que já tive medo numa rua escura e deserta, eu que já tive mais medo ainda numa rua escura enquanto um homem muito maior que eu passava do meu lado e me chamava de gostosa. Eu que já ouvi reclamação de namorado quando um amigo me ofereceu carona na volta da faculdade, que quase perdi a voz de tanto falar não pra alguém que deveria me respeitar, que ouvi “sua vadia”, da mesma boca que dizia “te amo”. Eu que já tive que me soltar de desconhecidos em baladas, que já vi careta de amiga porque falo muito palavrão e “não assim que princesas se comportam”. Eu, que diziam que algum dia ia apanhar de namorado por ser teimosa e bocuda. Eu que tive o tamanho dos peitos como tema de musiquinhas na escola. Eu que já me senti fraca, que senti vergonha do meu corpo.

O que eu tenho a acrescentar? Tudo. Porque me dá agonia ficar assistindo como se não me atingisse. Porque toda mulher, em algum grau e em vários momentos da vida sofreram agressões por serem mulheres, e muitas delas nem sabem disso. Tenho sim, vontade de gritar e de esticar o dedo na cara de quem, por não entender, por não fazer questão nenhuma de entender, diminui os medos que muitas ainda sentem.
É estressante falar sobre o assunto em época de bolsonaros, em um lugar que parece mais absurdo quando se pede respeito, do que quando um homem passa a mão em uma mulher na rua, mas sinto uma urgência em opinar e, felizmente, aqui eu posso me sentar confortavelmente, tirar meu sutiã e queimar ele em paz.

E para aqueles que chegaram até aqui, mas pretendem mostrar argumentos já conhecidos, aquelas questões que nenhuma feminista consegue responder, só que conseguem, segue que:

Feminismo não é a ideia de que as mulheres devem ser ociosas, e que os homens devem trabalhar para sustentar suas namoradas, feminismo não é argumento para embasar preguiça. Enquanto muita mulher luta pra poder ter espaço no mercado de trabalho, com direito a salários iguais aos dos homens de mesma função e formação, muitos outros reclamam que o feminismo quer fazer as mulheres pararem de trabalhar. Não, amigo. Não.

Feminismo não impõe que as mulheres batam nos homens. Nem que elas são melhores. Igualdade é a palavra e fim.

Homem pode ser feminista sim. Essa é nova pra mim: homem não pode ser feminista, homem já é naturalmente machista. Oxi! Homem pode e deve. Começamos pela ideia de que machismo não atinge apenas as mulheres, passamos pela questão de que feminismo é uma ideal e não uma classe social ou algo do tipo. Quem se identifica é, seja protagonista do cenário ou apenas alguém que apoia a luta. Alguém, por favor, me explique o problema na apropriação cultural, do discurso do privilégiado ou seja lá o que vocês acharem que se enquadra.

Feminicídio não é só uma lei em causa própria da presidente. É causa própria de toda mulher desse Brasilzão, que tenha ou não sofrido agressão por razão de gênero (que como já dito, certamente sofreu), e independente de ter votado na presidente ou não. Eu não preciso procurar dados na internet pra contar o tanto de mulher que é estuprada, morta, agredida física e moralmente por um homem que acha que detém direitos sobre uma mulher simplesmente por esta ser mulher (tenha assim nascido ou não). Antes que me perguntem se eu não acho que toda morte é errado, sim, eu acho. A lei também acha. Entretanto, quantos homens morrem por ser homens? quantos homens são vítimas de violência doméstica? Uma lei que torna mais rígida a punição por atos contra a mulher por razão de gênero não é vantagem em direitos para nós. A culpa é das estatísticas.

Se ainda parece absurdo que uma mulher seja também uma pessoa, se você está cansado de ouvir tanta gente falando sobre isso, se você acha que é tudo falta de uma pilha de louça pra lavar, pode se manifestar, tem problema não. Só não garanto que a vergonha vá ser pouca.