Um toque do além

Quem viveu a infância/adolescência na primeira década desse milênio muito provavelmente teve um grande contato com correntes. Elas eram o meme da época, se você não tomasse cuidado poderia ser atingido por uma corrente a qualquer momento e ser moralmente obrigado a executar alguma tarefa, que variava desde a repassar um email para todas as 15 pessoas da sua lista de contatos do hotmail senão a Samanta te faria uma visita, até reescrever 20 vezes o mesmo bilhete e entregar pra toda a sua turma inclusive a pessoa que você gostava, senão você teria azar no amor por sete anos, mas caso recebesse o papel de volta, a pessoa também gostava de você, e no fim você recebia de volta o papel 7 vezes por dia. Pois bem, esses dias eu descobri que uma coisa dessas pode ser legal, e entrei numa corrente literária que tá  rolando e é muito amor. Nela nenhum morto vem te buscar, mas também ninguém prova amor incondicional por você com um bilhetinho, mas ainda assim vale a pena. A corrente consiste em enviar um livro da sua estante para uma pessoa que você talvez não conheça mas que está a 2 graus de separação de você, e fazer com que mais 36 pessoas enviem algum livro da estante pessoal para você. Soa divertido, soa poético, soa literário. Quando a Clarinha me chamou pra participar, achei que seria a coisa mais rápida e indolor que pudesse existir.

Acontece que eu sou do tipo que pede desculpas pro livro quando precisa se desapegar. Eu digo “obrigada por tudo, tivemos bons momentos, mas agora precisamos conhecer pessoas novas, sabe, o problema é que você é bom demais pra ficar comigo, mas guardarei as boas lembranças”, e quando fui ter uma conversa muita séria com a galera da minha estante, quase vacilei. Na verdade tive o equivalente ao que os jovens chamam de remember com muitos dos meus livros (que, pensando bem, nem são tanto assim). Separei os que eu não poderia de jeito nenhum permitir que existissem em algum lugar senão dentro do meu quarto dos que são tão bonitinhos que talvez valessem mais fazendo outra pessoa feliz do que juntando pó. A segunda pilha foi difícil, confesso. Já estava aceitando que não sou nenhuma monja, não nasci pra empatia, pro compartilhar, não sei nem qual o gosto da pessoa, vai que ela odeia meu livro e deixa ele perdido num canto? quando peguei pra fazer carinho um livrinho fininho chamado Peixe Grande, escrito pelo moço Daniel Wallace – talvez vocês estejam associando ao filme do Tim Burton e têm todo motivo pra isso, porque o filme é baseado nesse livro.

Eu me apaixonei por Edward Bloom no segundo em que ouvi seu nome, e me desapaixonei por Edward Bloom no segundo que li. Esse é, desde sempre, meu filme predileto. Meu livro? nem tanto. As histórias são diferentes, devo dizer e paro por aqui pra evitar qualquer spoiler e porque nem é a ideia do post. O que eu preciso dizer a respeito disso é que, apesar da história do filme ter sido sempre a minha predileta enquanto a do livro me angustiava, eu não quis me desfazer desse. A essência estava lá de alguma forma, Edward Bloom poderia não entender e se sentir traído, e enquanto tinha uma DR com o personagem da história folheava o livro porque é involuntário.

O que aconteceu, e esse, finalmente, é o ponto dessa história toda, é que encontrei, dentro do livro um pedacinho de papel menor que meu dedo indicador, com um apelo numa letra que eu não reconheço: “traz meu livro”.

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Não lembro de ter emprestado o livro pra alguém que pudesse ter colocado o bilhete lá. Não lembro de ter roubado livro de alguém pra ter que levar de volta. Não lembro de ter tido contato com o mundo na mesma época em que pensava em morar em Spectra. Ou seja, só pode ter sido o Universo. E quando o Universo fala, a gente responde “sim, senhor e obrigada!”, e foi o que eu fiz. Levei o livro de Fernanda, mas não sem antes dar um lidinha rapidinho aqui só pra ver um negocinho, e entramos em outra história agora. A história de como Peixe Grande – o livro, de repente fez muito mais sentido pra mim, e de quando eu talvez tenha mudado um pouquinho pra me sentir muito mais acolhida e interessada por uma história mais realista e plausível do que por uma história fantástica (em todos os significados) e sensível.

Fiquei achando que cresci e amadureci enquanto explicava pro livro que eu tinha que obedecer o Universo.

Amor a gosto

Existe, a partir de agora, uma aura dourada ao meu redor que filtra a energias, repelindo impurezas físicas e espirituais. Existe um escudo contra a imoralidade e a desumanidade natural da civilização, e contra negatividade de karmas transpassantes. Meu corpo está fechado, meu coração está aberto. Como é de se esperar em agosto, a vida é boa.

Existe uma demanda de inspiração incontrolável que me faz acreditar ser dona do mundo – ou da minha própria vida, que é mais ou menos a mesma coisa. Eu quero desafios, poesia e harmonia, quero uma arte pra qualquer razão, quero comprovar que a minha vontade é maior que qualquer destino ou regra.

Talvez mais ousado do que qualquer coisa, eu quero me escrever, me desenhar, me bordar, me cantar toda. Não vou dizer que vou participar do BEDA porque é preciso ter cuidado com as paixões e as promessas não condizem com o improviso do agora. Não vou dizer que estarei em estado perfeito de mindfulness porque ele me impede do orgulho do passado e da expectativa confortadora.

Não esperem nada.

Apenas a deliciosa soberania de Agosto.